CULTURA DA VIDEIRA

 

 

SALES, M.

MELO, B.

 

Sumário

1.Introdução.. 2

2. História da Viticultura.. 4

3. Clima.. 4

3.1. Temperatura. 5

3.2. Pluviometria. 5

3.3. Umidade Relativa. 5

3.4. Luminosidade. 6

3.5. Ventos. 6

4. Cultivares. 6

4.1. Porta-enxertos. 6

4.2. Cultivares de uvas para mesa. 8

4.3. Cultivares de uvas para vinho e/ou suco. 10

5. Propagação.. 12

5.1. Seleção das estacas. 12

5.2. Preparo do material para estaquia. 12

5.3. Preparo do material para enxertia. 13

5.4. Enxertia. 13

6. Estabelecimento do Vinhedo.. 14

6.1. Localização. 14

6.2. Quebra-Ventos. 15

6.3. Preparo do solo. 15

6.4. Adubação básica. 16

6.5. Construção da latada. 17

6.6. Plantio. 18

6.7. Práticas Culturais. 19

7. Nutrição e adubação.. 20

7.1. Sintomas de deficiência e de excesso nutricional. 20

7.1.1. Macronutrientes 21

7.1.2. Micronutrientes 23

7.2. Recomendação de adubação. 24

7.2.1. Análise foliar 24

7.2.2. Adubações de cobertura na fase de crescimento. 25

7.2.4. Adubações de cobertura na fase produtiva. 26

7.2.5. Adubações foliares 26

8.Manejo do Vinhedo.. 27

8.1. Poda de formação. 28

8.2. Período de repouso. 28

8.3. Poda de frutificação. 29

8.4. Aplicação de reguladores de crescimento. 30

8.4.1. Brotação das gemas 30

8.4.2.Elongação da ráquis e dos pedicelos 30

8.4.3. Coloração dos bagos 31

8.5. Condução da parte aérea. 31

8.6.Descompactação dos cachos. 33

9. Irrigação.. 34

9.1. Sistema de irrigação. 35

9.2. Manejo de água. 36

10. Doenças e Pragas. 37

10.1. Oídio. 37

10.2. Antracnose. 38

10.3. Míldio. 39

10.4. Declínio da Videira. 42

10.5. Viroses. 43

10.6. Enrolamento da folha. 43

10.7. Escoriose. 44

10.8. Fusariose. 46

10.9. Cancro bacteriano. 47

11. Pragas. 49

11.1. Cochonilhas. 49

11.2. Ácaros da videira. 53

11.3. Mosca-das-frutas. 54

11.4. Filoxera. 55

11.5. Pérola-da-terra. 56

12.  Colheita.. 58

12.1.     Previsão de colheitas e produtividade. 58

12.2.Ponto de colheita. 59

12.3.Colheita manual. 59

12.4. Embalagem.. 60

12.5.     Armazenamento. 60

13.  rEFERÊNCIA bIBLIOGRAFICA.. 61

 

 

 

1.Introdução

Em função de a uva tratar-se de fruta cultivada há séculos, com mercados consolidados tanto para o consumo na forma de fruta fresca como na forma de vinho, seu cultivo encontra-se espalhado por todos os continentes, mas com nítida superioridade de países europeus, como Itália, França e Espanha. Fora desse bloco, destacam-se os Estados Unidos e a Turquia. Já no Brasil os estados que mais se destacam são, o Estado do Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Na região do Trópico Semi-Árido do Brasil e, mais especificamente, no Vale do Submédio São Francisco.

O cultivo de uvas para o consumo in natura adquiriu relevância econômica no plano internacional no final da década de setenta, quando o avanço nas tecnologias aplicadas à produção permitiu obter e ofertar um produto de qualidade nos diferentes merca­dos consumidores, favorecendo o incremento constante do consumo e exportação.

Os fatores técnico-econômicos de fundamental importância para o desenvolvimento de uma viticultura economicamente viável para fins de exportação são os seguintes:

     Plantio de cultivares adaptadas às condições climáticas e que tenham aceitação pelo mercado consumidor;

      Técnicas culturais mais adequadas à(s) cultivar(es) explorada(s);

      Avaliação precisa dos custos de implantação e produção, assim como dos mercados consumidores;

      Implantação de adequada infra-estrutura para colheita e embalagem do produto, com conservação;

       Frigorífica;

       Disponibilidade de mão-de-obra especializada;

       Montagem e operação de uma eficiente estrutura de comercialização;

       Disponibilidade de adequadas vias de acesso aos locais de embarque;

       Acesso a linhas de crédito para implantação dos vinhedos e construção de infra-estrutura de packing house.

Um estudo minucioso de tais fatores é indispensável para obter-se êxito com a produção de uvas para exportação. A inexistência ou deficiência de um destes fatores, numa região que deseja desenvolver uma viticultura tecnificada e rentável, compromete os futuros empreendimentos com problemas não só técnicos, mas principalmente econômicos, pela falta de rentabilidade do próprio processo produtivo.

Pretende-se, com este trabalho, ressaltar o desenvolvimento de um processo produtivo que abranja todos os fatores associados à produção de uvas para a exportação.

 

2. História da Viticultura

 

Segundo os geólogos, foi na era Cenozóica, que se processou há 100 milhões de anos, no período Quaternário que o  homem começou alimentar-se de negros cachos de uvas. Hedric (1924) menciona achados freqüentes de sementes de videira de permeio com vestígios das populações pré-históricas e cujos frutos constituíram importante parte do seu magro cardápio.

Provavelmente a atual Groenlândia e outras regiões hiperbóreas são o centro paleontológico de origem da videira, isto é, foi nessas áreas que se encontraram os fósseis mais antigos de plantas ancestrais das atuais vides cultivadas.

            Do mencionado centro, as videiras primitivas foram pouco a pouco ganhando as terras meridionais, seguindo duas direções principais: uma Américo-asiática, Outra euro-asiática. Deste último percurso é que se origina a Vitis sezannensis, consagrada como a mais importante Vitis terciária, elo da evolução para a Vitis vinifera – a videira da atualidade.

 

           

3. Clima

 

O clima possui forte influência sobre a videira, sendo importante na definição das potencialidades das regiões. Ele interage com os demais componentes do meio natural, em particular com o solo, assim como com a cultivar e com as técnicas agronômicas da videira.

As videiras européias (Vitis vinifera L.) são, na sua maioria, muito sensíveis ao ataque de doenças fúngicas, cuja incidência está estreitamente relaciona­da com as condições climáticas de temperatura, precipitação e umidade relativa.

Em decorrência destes fatores, a viticultura disseminou-se em regiões de clima árido ou semi­árido, com média de precipitações abaixo de 800 mm anuais, e que, além disto, apresentam durante o ciclo fenológico temperaturas elevadas, baixa umidade relativa, pouca nebulosidade e alta insolação.

 

3.1. Temperatura

Temperatura do ar apresenta diferentes efeitos sobre a videira, variáveis em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso da planta, conforme exposto a seguir.

 

3.2. Pluviometria

Aprecipitação pluviométrica é um dos elementos meteorológicos mais importantes na viticultura. A videira é uma cultura bastante resistente à seca. Para a videira influem não somente a quantidade total de chuvas, mas também sua distribuição ao longo do ciclo vegetativo. As chuvas de inverno têm pouca influência sobre a videira. É importante que os solos apresentem disponibilidade hídrica adequada no período de brotação das plantas. Durante a primavera, as chuvas são importantes para o desenvolvimento da planta, porém, em excesso, podem favorecer o desenvolvimento de algumas doenças fúngicas da parte aérea, bem como afetar fases importantes da videira, como a floração e a frutificação, causando baixo vingamento de frutos e desavinho.

 

3.3. Umidade Relativa

A importância da umidade relativa do ar está diretamente relacionada com o estado fitossanitário da cultura da videira. Quando a umidade do ar é baixa, a maioria dos fungos não encontra um ambiente favorável para se desenvolver. Com isto, obtêm-se uvas mais sadias, sem o uso excessivo de defensivos.

 

3.4. Luminosidade

A videira é uma planta exigente em luz. O manejo do dossel vegetativo do vinhedo deve proporcionar uma boa exposição foliar à radiação solar. Durante o período de maturação das uvas a evolução do teor de açúcar é favorecido peça ocorrência de dias ensolarados.

 

3.5. Ventos     

 

No período das chuvas, a ocorrência de ventos suaves é benéfica, por facilitar a secagem das folhas, reduzindo a incidência do ataque de fungos. Já os ventos fortes e constantes são, ao contrário, muito prejudiciais, por dificultarem a condução das plantas e produzirem queimaduras nas folhas e danos mecânicos nos frutos.

 

 

4. Cultivares

 

A viticultura é uma atividade bastante diversificada no mundo e também no Brasil. A finalidade da exploração, a região de cultivo, o solo e o clima predominantes influenciam diretamente na escolha das cultivares a serem utilizadas.

A diversidade genética encontrada tanto dentro das espécies do gênero Vittis como entre elas é grande, permitindo , quase sempre, a escolha do material mais adequado, entre as centenas de cultivares existentes na cultura. Esse número é ampliado ano a ano como resultado de diversos programas de melhoramento no mundo.

 

4.1. Porta-enxertos      

 

Mais de uma dezena de porta-enxertos são utilizados na viticultura das regiões temperadas do Brasil. Todavia, na escolha do porta-enxerto também devem ser considerados fatores como a fertilidade do solo e a susceptibilidade do porta-enxerto a doenças e pragas ocorrentes na região ou local de plantio do vinhedo. Em certos casos a cultivar também pode ser determinante na escolha do porta-enxerto. A pesar da disponibilidade razoável de bons porta-enxertos, é preciso mencionar que cada um deles tem sua deficiência intrínseca e só a experimentação regional pode determinar com regular precisão qual é o melhor. Seja como for, a principal recomendação técnica é a de nunca usar um único porta-enxerto em grandes áreas. 

 

 

Tropical (IAC 313)

Originário do cruzamento entre Go/ia e Vitis cinerea, herdou desta o desenvolvimento vegetativo contínuo, característico das videiras de clima tropical. Daí ser um porta-enxerto muito vigoroso, com perfeita adaptação às condições climáticas tropicais, com ramos que lignificam tardiamente e dificilmente perdem as folhas. Adapta-se bem aos diferentes tipos de solos com boa tolerância aos nematóides, e suas folhas são resistentes às principais moléstias.

 

Jales IAC 572

Obtido do cruzamento entre Vitis caribea e 101-14 (Vitis riparia x Vitis rupestris). Porta-enxerto vigoroso, que se adapta bem tanto em solos argilosos como em arenosos. Com ótimo enraizamento e pegamento, apresenta folhas resistentes às principais moléstias.

Contudo esses porta-enxertos podem ser substituídos por outros, que se apresentem resistentes a nematóides, embora menos vigorosos, mas que concorrem para uma produção de maior qualidade, como: Dog Ridge, Salt Creek, SO-4, R-99, Harmony.

 

1103 Paulsen

 Este porta-enxerto pertence ao grupo berlandieri x rupestris. Teve grande difusão no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina nos últimos anos porque apresenta tolerância à fusariose, doença comum nas zonas vitícolas da Serra Gaúcha e do Vale do Rio do Peixe. É vigoroso, enraíza com facilidade e apresenta boa pega de enxertia. Tem demonstrado boa afinidade geral com as diversas cultivares. É o porta-enxerto mais propagado atualmente na região sul do Brasil. Entre os viticultores também é conhecido como Piopeta ou Piopa.

 

Rupestris du Lot

Trata-se de uma variedade de V. rupestris, característica pelo hábito de crescimento ereto, sendo, por isso, conhecido pelos agricultores da Serra Gaúcha pelos nomes "Vassourinha", "Pinheirinho" ou "Arboreto". É um porta-enxerto vigoroso, com sistema radicular pivotante, adaptado a solos profundos. Apresenta fácil enraizamento, boa pega de enxertia e induz alto vigor à copa. 

 

SO4

Este porta-enxerto do grupo berlandieri x riparia foi introduzido na década de 1970, sendo muito difundido no Rio Grande do Sul nos anos subsequentes. Em geral confere desenvolvimento vigoroso e boas produtividades à maioria das copas. Atualmente é muito pouco propagado devido à alta sensibilidade à fusariose e a problemas de dessecamento do engaço, uma anomalia verificada em certos anos, devido a desequilíbrio nutricional envolvendo o balanço entre potássio, cálcio e magnésio. Estes problemas não têm sido constatados na região de Livramento, onde o solo é profundo e bem drenado.

 

4.2. Cultivares de uvas para mesa

 

Itália

Essa cultivar está apta a produzir, em plantios comerciais, cachos volumosos com um peso médio de 500 g. Quando os cachos são bem raleados, produzem bagos grandes, com película grossa de coloração amarelo-âmbar, e sabor levemente moscato. Se for bem conduzida em sistema de latada, a produtividade dessa cultivar chega a 40t por hectare em um ano

 

 

 

Piratininga

Em plantios comerciais, essa cultivar também pode produzir cachos volumosos, com um peso médio de 450g, não sendo necessário um desbaste muito rigoroso. Os bagos são grandes, de coloração rosa-avinhado, com película grossa e sabor neutro, levemente ácido. Sua produtividade atinge até 40t por hectare em um ano, quando a videira é bem conduzida em sistema de latada

 

Niágara Branca

É a principal uva americana utilizada para a produção de vinho de mesa, sendo muito apreciada pelos consumidores devido ao intenso aroma e sabor característico que confere ao vinho. Além de expressiva área cultivada nas principais regiões produtoras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a Niágara Branca encontra-se difusa em pequenas áreas em várias partes do sul do Brasil e, também, no Sul de Minas Gerais, onde é empregada na elaboração de vinhos caseiros e, também, para consumo in natura. Niágara Branca é uma cultivar fértil e bastante resistente às doenças fúngicas. Pode ser plantada de pé-franco mas normalmente é enxertada.

 

Niágara Rosada

            Surgiu de uma mutação somática natural da Niágara Branca, no município de Jundiaí, (SP), em 1933. Possui as mesmas características de Niágara Branca, exceto a cor, mais atraente ao consumidor.

 
  Isabel 

Apesar de todos os esforços para substituir esta cultivar desde a década de 1930, a Isabel persiste com 50% da uva produzida no Rio Grande do Sul e é a principal cultivar plantada em Santa Catarina. Origina vinho típico, em anos chuvosos pouco coloridos, apreciado por uma faixa específica de consumidores. O suco de Isabel é a base do suco brasileiro para exportação. É uma cultivar de Vitis labrusca, muito bem adaptada às condições climáticas do Sul do Brasil. Fornece produções abundantes em poda curta; resistente ao oídio e às podridões do cacho, porém está sujeita a perdas pela incidência de antracnose e de míldio. Normalmente é enxertada mas pode ser plantada de pé-franco; vinhedos de pé-franco normalmente exigem um período de formação mais longo mas atingem 80-100 anos com produções econômicas.

 

Isabel Precoce

É um clone de Isabel, decorrente de mutação somática, selecionado em 1993 num vinhedo comercial situado no município de Farroupilha. Apresenta as características gerais da tradicional cultivar Isabel, entretanto, tem a maturação antecipada em 35 dias. Foi avaliada na Embrapa Uva e Vinho e a partir do ano 2000 começou a ser difundida como alternativa para a ampliação do período de produção e processamento de uvas para vinhos tintos de mesa e suco de uva. As condições para cultivo de Isabel Precoce são as mesmas da cultivar original.

 

Concord 

É a labrusca mais procurada para a elaboração de suco pelas características de aroma e sabor que confere ao produto. Em geral é cultivada de pé franco com bons resultados. É bastante produtiva quando em poda longa. Apresenta alta resistência ao míldio e ao oídio, porém, mostra-se um pouco sensível à antracnose, doença que pode causar perdas se não for convenientemente controlada na fase inicial do crescimento vegetativo. A película da uva é fina, por isso, bastante susceptível ao rachamento de bagas quando ocorre tempo chuvoso na fase de maturação. Certos vinhedos apresentam abortamento floral com prejuízos significativos. As causas deste problema ainda não são conhecidas, podendo ser de ordem nutricional ou de origem fitossanitária. Concord é cultivada principalmente nos três Estados do Sul, sendo também conhecida como Francesa e Bergerac.

 

4.3. Cultivares de uvas para vinho e/ou suco

 

Uvas para vinho devem apresentar características que as recomendem para esse uso, como boa produção, coloração agradável, sabor vinoso, aroma típico. Por definição clássica, vinho é o produto da fermentação dos frutos de Vitis vinifera. Entretanto, muitas cultivares de veníferas o híbridos, apesar de aptidão razoável para determinado fim, acabam sendo utilizadas para outros fins.

 

Cabernet Franc

            De origem francesa, é a principal vinífera tinta cultivada no Brasil (RS). De grande vigor, as plantas produzem relativamente pouco. Os cachos são alados, pequenos (70-150g). As bagas são pequenas, esféricas, pretas. Maturação média a tardia. Ela exige um bom controle fitossanitário. Apesar de suas fracas características agronômicas, o vinho produzido é de primeira qualidade.

 

Riesling Itálico

            Produtora de vinhos muito populares no Brasil, é conhecida erroneamente por esse nome. É originária da França (Meslier de Champagne), ao contrário da original Riesling ( Renano), que é de Reno, na Alemanha. De cachos médios, cônicos, compactos. Bagas pequenas a média, redonda, amarelo-esverdeadas. Polpa deliqüescente, aromática.

Bordô

            È o nome comum de cultivar Ives, de origem incerta, obtida por Henry Ives. Também chamada de Folha de Figo, na região de Caldas, MG, é cultivada em área considerável nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. De bom vigor e produtividade, apresenta alta resistência às doenças fúngicas. Os cachos são pequenos (150g), cilíndricos, às vezes alado e medianamente compacto. As   bagas são pequenas (2 a 3g) , arredondadas, pretas, com polpa de textura fundente a média e sabor foxado.

Seyve Villard 5276

 Também denominada Seyval, esta cultivar é uma híbrida complexa altamente produtiva e que apresenta alto potencial de açúcar, normalmente atingindo mais de 20ºBrix. Resiste ao míldio mas é sensível à antracnose, necessitando controle no início do ciclo vegetativo. Também é sensível à filoxera galícola, às vezes exigindo tratamentos para seu controle. Deve ser enxertada e exige adubações abundantes para suportar as grandes produções sem perda significativa do vigor e da longevidade. Origina vinho branco de mesa de muito boa qualidade. Durante algum tempo foi comercializada no Rio Grande do Sul como uva fina, em geral como Sauvignon ou como Riesling.
     Os dados apresentados podem variar significativamente de ano para ano e de local para local,

além da possibilidade de variações devidas ao sistema de manejo        empregado no vinhedo.

 

Couderc 13

Introduzida na década de 1970 pela Estação Experimental de Caxias do Sul, foi difundida com relativa facilidade por ser muito rústica e produtiva. O vinho é pouco ácido e neutro em sabor, podendo ser cortado com outros vinhos comuns. É cultivada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, sendo que resultados de pesquisa a indicam como opção também para o Sul de Minas Gerais. É uma cultivar resistente às doenças fúngicas, entretanto, apresenta baixo potencial glucométrico.

 

4.4. Cultivares sem sementes

 

Dois mecanismos naturais dão origem ás cultivares de uvas sem sementes, também chamadas de apirenos:partenocarpia e estenospermocarpia. Mundialmente, o interesse por uvas sem se­mentes aumenta cada vez mais no mercado consumi­dor de frutas. Entre as cultivares comercializadas estão:

 

IAC 457-11 “Paulistinha”

            Descendente de Niagara Branca com Sultanina. A planta é vigorasa, apresenta ciclo curto e produtividade média. Os cachos são méidios e cilíndricos, pesando em média 200-300 g, necessitando de desbaste de 20% das bagas; resistência pequena a média ao transporte para a comercialização. Bagas trincante, forma arredonda, sabor que lembra frutas tropicais; bagas carnosas, boa aderência ao pedicelo. Essa variedade pode ser conduzida em espaldeira e latada, exigindo poda média à longa ( quatro a oito gemas). Afinidade de enxertia normal para  Ripária do Traviú e IAC 766.

 

Thompson Seedless (Sultanina)

Esta cultivar é originária da Ásia Menor e foi cultivada na Califórnia, pela primeira vez, por Wilson Thompson, há mais de 100 anos. È conhecida por outros nomes, como Sultanina, Sultana ou Kishmish oval.

Seus cachos são grande, pesando em média 400-600g, acentuadamente alados, cilindro-alongados, compactos. As bagas são uniformes, de tamanho médio, pesando em média 4-6g, ovalalongadas, cor esverdeada ou levemente dourada quando bem maduras, sem sementes, textura firme, sabor nobre. São de maturação média. As plantas são muito vigorosas e produtivas, devendo ser podadas em ramos bem longos (15 a20 gemas). Bem adaptadas a áreas de intenso calor, são muito plantadas no deserto da Califórnia e Chile.

Há, pelo menos, 20 anos, a área plantada com Thompson Seedless na Califórnia supera os 80.000ha.,dos quais cerca de 35.000 a 40.000 são exploradas como uva de mesa.

 

Perlette

Esta cultivar foi obtida, na Califórnia, por Olmo, em 1936, do cruzamento entre Regina dei Vigneti e Sultanina Marble. No Nordeste do Brasil, as plantas dessa cultivar são de vigor mediano, produzindo em média 30 cachos por planta. Os cachos são de tamanho médio (250 a 350g), compactos, cônicos e alados.

Os bagos são pequenos, arredondados e de coloração verde-amarelada. A polpa é crocante e de sabor levemente moscato. Um tamanho de 18 mm de diâmetro, adequado para comercialização, é atingido com duas aplicações de 20ppm de ácido giberélico.

Atinge uma produtividade média de 20 t por hectare em dois ciclos por ano. A precocidade dessa cultivar é sua característica marcante.

 

 

 

 

 

5. Propagação

 

Normalmente, a videira é propagada de forma vegetativa por estaquia e enxertia.

 

5.1. Seleção das estacas

 

As plantas destinadas ao fornecimento das estacas serão selecionadas, a priori, de acordo com as seguintes características: crescimento vigoroso, alta produtividade, bom aspecto sanitário (livres de doenças e de pragas) e devem apresentar ramos bem lignificados e formados.

 

5.2. Preparo do material para estaquia

 

As estacas que se destinam ao plantio em viveiro ou diretamente no campo são cortadas com 25-30 cm de comprimento e com duas a três gemas.

O corte da base das estacas é feito sobre o nó; o do ápice é feito três a quatro centímetros acima da gema superior, o que evita o ressecamento da mesma. As gemas que ficarão enterradas são eliminadas, para que haja maior absorção de água, facilitando o enraizamento e evitando a emissão de ramos ladrões.

 

5.3. Preparo do material para enxertia

 

Produtora

Os enxertos ou garfos são fragmentos de vara da cultivar produtora que apresentam duas gemas. A extremidade superior é cortada reta, três a quatro centímetros acima da gema, e a inferior é cortada em forma de cunha.

A seguir enrola-se o enxerto com fita plástica, deixando-se somente as gemas e a cunha descobertas. A extremidade superior deve ser bem protegida, para evitar-se o dessecamento do enxerto.

 

Porta-enxertos para enxertia de mesa

São fragmentos de vara da cultivar escolhida como porta-enxerto. Medem em torno de   25 - 30 cm e possuem duas a três gemas. O corte inferior é feito bem junto ao nó e o superior      6 - 8 cm acima da gema superior. As gemas são eliminadas para favorecer o enraizamento e também para evitar que haja emissão de ramos ladrões.

 

 

Porta-enxertos para enxertia de campo

As mudas de porta-enxertos são plantadas no campo e seus ramos, em número de três, são conduzidos na vertical. Todas as brotações secundárias são eliminadas, o que favorece o engrossamento dos ramos que serão enxertados. Por ocasião da enxertia, cortam-se dois ramos a 20 cm do solo e eliminam-se todas as folhas abaixo do corte.

 

5.4. Enxertia

A enxertia consiste na união do enxerto com o porta-enxerto,já devidamente preparados. Na enxertia de garfagem de fenda cheia, o enxertador deve observar a seguinte seqüência:

a)      Cortar verticalmente a estaca ou os ramos do porta-enxerto, abrindo uma fenda de dois a três centímetros, sem atingira nó imediatamente abaixo do local do corte;

b)      Introduzir nessa fenda o enxerto com a extremidade inferior cortada em cunha;

c)       Certificar-se do estabelecimento de contato entre as cascas do enxerto e do porta-enxerto, ainda que tal contato só ocorra de um lado. Neste caso, a gema do enxerto próxima à cunha deve ficar voltada para o lado em que as cascas se unem;

d)      Após a colocação do enxerto na fenda do porta­enxerto, fixaras mesmos com fita de plástico, para evitar um possível deslocamento do enxerto, o que prejudicaria a enxertia.

Na enxertia de campo, pode-se utilizaras plantas de porta-enxerto, com os ramos verdosos e material do enxerto em início de lignificação pois, segundo observações feitas, a cicatrização se processa com maior rapidez e de maneira mais uniforme, não se produzindo, aparentemente, nenhuma necrose dos tecidos.

A operação de enxertia pode ser realizada em qualquer época do ano; o crescimento da muda, entretanto, é menor no período mais frio, ou seja, de meados de maio a agosto. Os processos de enxertia citados apresentam alto índice de pega. Sugere-se, então, a enxertia de mesa por apresentar as seguintes vantagens:

        É possível não só antecipar em três meses ou mais a primeira colheita, como tornar a formação da muda mais econômica;

        Através da seleção das mudas que formarão o vinhedo, obtém-se maior homogeneidade da área;

        Há a redução na emissão de ramos ladrões provenientes do porta-enxerto;

É possível conseguir plantas vigorosas, semelhantes às obtidas com a enxertia de campo.

 

 

6. Estabelecimento do Vinhedo

 

O que se pretende com o cultivo da videira é produzir uvas durante muitos anos, para isto é importante que o solo da área a ser implantada seja bem preparado e que nele se façam previamente todas as melhorias necessárias, antes da instalação dos sistemas de condução e irrigação, e do plantio das mudas.

 

6.1. Localização

 

O vinhedo deverá ser localizado em área com topografia apropriada para irrigação. Deve-se fazer um estudo criterioso das características do solo com relação a textura, profundidade e fertilidade. Os solos que apresentarem um perfil pouco profundo, com menos de um metro, devem ser descartados para o cultivo de uvas, pois a videira não se adapta a solos mal drenados e com lençol freático superficial.

As fileiras de plantio devem ser orientadas no mesmo sentido dos ventos dominantes, pois as videiras se ressentem com fortes rajadas de vento, que lhes são prejudiciais, não só por provocarem a quebra de ramos, mas também por causarem danos físicos nos cachos, tornando-os impróprios para a comercialização, por se apresentarem excessivamente manchados.

 

6.2. Quebra-Ventos

Na implantação de um vinhedo deve-se dispor de área livre para instalação de quebra-ventos forma­dos por espécies vegetais, tais como eucalipto, leucena, bananeira e capim Cameron. Pode-se também, utilizar como quebra-vento telas de nylon, com 70% de densidade, colocadas alto, na vertical, do lado em que penetra o vento, em toda a extensão do vinhedo. Desse modo, consegue-se evitar que os bagos sofram danos mecânicos causados pelo vento, sob a forma de escoriações superficiais que desqualificam a uva no processo de comercialização.

 

6.3. Preparo do solo

 

Limpeza da área

Deve-se eliminar do terreno toda a vegetação existente. de forma a permitir o total aproveitamento do solo. Essa limpeza, que consiste nas operações de desmatamento, roçagem e destocamento da área, de­verá ser realizada quatro meses antes da data prevista para o plantio, o que resultará em tempo para a execução dos trabalhos subseqüentes de sistematização da área, análise do solo, correção, instalação do sistema de irrigação, confecção do sistema de condução e outros.

Sistematização da área

Conforme o método de irrigação a ser utilizado, o nivelamento do terreno poderá ser aconselhável. Entretanto, a remoção de solo deve ser mínima, para que não ocorra exposição do subsolo.

 

Análise do solo

Logo após a limpeza do terreno, três meses antes do plantio, coletam-se amostras de solo representativas da área onde será implantado o vinhedo, num perfil com profundidade média de       35 cm. Tais amostras são enviadas a laboratório especializado em análise de solo para averiguação das necessidades de calagem e fertilização do terreno.

 

Calagem

Na hipótese do laudo da análise de solo assina­lar a necessidade de cal agem, esta deverá ser feita de 30 à 60 dias antes do plantio, procurando-se sempre colocar calcário suficiente para que o solo atinja um pH em tomo de 6,0 - 6,5.

 

Gradagem e aração

Após a distribuição do calcário é aconselhável a operação de gradagem, a fim de incorporar o corretivo ao solo, seguida de uma aração profunda, revolvendo-se uma camada de 20 a 40 cm. No caso de solo com camada compacta e desunifom1e, pode-se utilizar com vantagens o subsolador, uma vez concluída a aração.4

 

Sulcagem para adubação básica

Por causa do pequeno espaçamento entre plantas nas linhas dos vinhedos, recomenda-se a abertura de sulcos para adubação. Pode-se também realizar a adubação por processo convencional de abertura de covas (40 x 40 x 40 cm). Os sulcos são abertos com uma profundidade mínima de 40 cm, e no sentido das linhas de plantio.

 

Implantação do sistema de irrigação

O sistema de irrigação a ser utilizado, seja qual for, deverá ser implantado antes de realizar a adubação básica. O trabalho de instalação do sistema de irrigação é, em geral, realizado pela empresa que fornece o equipamento.

 

 

 

6.4. Adubação básica

A adubação básica deverá ser realizada de 15 a 30 dias antes do plantio, de forma contínua, nos sulcos abertos para este fim. Aconselha-se, inicial­mente, o uso de esterco de caprino ou de bovino na base de 20 litros por planta, para dar melhores condições físicas, químicas e microbiológicas ao solo, o que irá favorecer a absorção dos nutrientes minerais pelas plantas: Os nutrientes minerais fósforo e potássio serão utilizados segundo as quantidades recomenda­das no Quadro 1, de acordo com o resultado da análise.

 

Nutriente

Fósforo (P-mg.dm-3)

Potássio (cmolc.dm-3)

Quantidade no solo

0-10

11-20

21-40

0-0,10

0,11-0,20

0,21-0,40

Quantidade a aplicar

(g/planta)

150

100

70

80

50

30

Após a adubação, fecham-se os sulcos, de maneira que haja a incorporação dos adubos.

 

6.5. Construção da latada

 

Na região do Submédio São Francisco, o sis­tema de condução tradicionalmente adotado para a videira é a latada.

 

Área

É aconselhável a construção de latadas com fileiras medindo até 200 m, e tendo o mesmo comprimento dos lados, cobrindo uma área de quatro hectares. Desse modo, facilitam-se as práticas de cultivo e reduzem-se os custos de construção. Entre as latadas são abertas ruas suficientemente largas para permitir a manobra de máquinas.

 

Espaçamento

Deve ser definido antes de se traçar e construir a latada. Para cultivares enxertadas sobre porta­enxertos vigorosos, o espaçamento pode ser de 3 x 3 m ou 4 x 2 m: para cultivares enxertadas em porta­enxertos menos vigorosos, pode ser de 3 x 2,5 m ou 3 x 2 m. As distâncias entre fileiras inferiores a 3 metros não são aconselháveis, uma vez que dificultam os trabalhos mecanizados.

 

 

 

Traçado

Definida a distância de plantio e preparado o terreno, esse pode ser demarcado da seguinte forma:

         i.      Traçado das linhas principais: crava-se uma esta­ca num dos cantos em que ficará a latada, a partir daí traça-se um ângulo reto para que a latada fique devidamente retangular ou quadrada. Para formar o ângulo reto utiliza-se uma corda marcada com as distâncias entre as fileiras; a 4ª marca coincidirá com a estaca fixada no ponto A, conforme se vê na; a 8ª marca deverá corresponder à estaca no ponto B, enquanto a 13ª se ajustará com a primeira em C. Prolongando-se os lados AC e AB formam-se as linhas principais da latada.

       ii.      Traçado das linhas de plantio: na linha lateral em que estão demarcadas as distâncias entre as linhas, faz-se um outro ângulo reto, demarcando­-se uma nova linha de plantio (BD) paralela a primeira (AC).

      iii.      Demarcação da área: com base nos dois ângulos retos que foram traçados na área, demarca-se a linha A'B', cuja distância deve ser igual à da linha A'B', comprovando que os ângulos foram bem traçados. Sobre a linha A'B' marca-se, com piquetes, a distância entre as linhas de plantio, e a partir daí marcam-se todas a linhas de plantio da área.

 

Armação da estrutura da latada

Completada a demarcação, faz-se a distribuição dos moirões e das estacas na área, de modo a colocar um moirão em cada canto da latada e estacas mais grossas em cada extremidade das linhas de plantio, enterradas num ângulo de 60° com o solo. A cada poste corresponderá um esticador, destinado a sustentar o peso da linha de plantas.

 

Distribuição dos arames

Uma vez assentados os postes, procede-se ao esticamento dos arames. Começa-se pelos fios de nº 10 nas linhas de plantio, seguindo-se os fios de nº 12, distribuídos perpendicularmente às linhas de plantio a cada 6 m, os quais sustentarão os fios de nº 14, que serão colocados a cada 0,50 m nas entrelinhas. Ver o esquema apresentado na.

A latada deverá ficar bem esticada, a 2m de altura, pois com o peso das frutas há sempre o risco de que fique muito baixa, tornando-se inadequada à realização dos trabalhos mecanizados.

Fig. 11. Sistema de condução de latada

 

 

6.6. Plantio    

 

As mudas do porta-enxerto ou da produtora de pé-franco ou enxertada poderão ser levadas para o campo com dois a três meses de idade, desde que tenham sido bem protegidas do ataque de pragas e doenças.

 

Época

Havendo disponibilidade de mudas, o plantio pode ser efetuado em qualquer época do ano. No entanto, para minimizar os custos com irrigação, aconselha-se o plantio no início da estação chuvosa (dezembro).

 

Covas

Devem ser de tamanho suficiente para acomodar o sistema radicular da muda. São abertas no camalhão que se formou sobre a linha de adubo depositado no fundo do sulco de adubação.

 

Tutoramento

Antes de plantar a muda ou imediatamente após, enterrar um tutor que conduzirá a brotação verticalmente até o arame do sistema de condução.

 

Irrigação

Imediatamente após o plantio, deve-se irrigar abundantemente a área, de modo que o nível de umidade no solo chegue a capacidade de campo (Cc). Essa primeira rega favorece o pegamento das mudas, pelo fato de colocar suas raízes em contato com os nutrientes previamente incorporados nos sulcos de adubação.

 

6.7. Práticas Culturais

 

Durante a fase inicial de crescimento, que se completa na primeira poda de frutificação, deve-se ter cuidados especiais com as pequenas videiras, executando todas as práticas culturais necessárias ao bom desenvolvimento da cultura. As práticas de poda de condução, amarração, limpeza da área, combate à formiga, tratamentos fitossanitários e irrigação de­vem ser realizadas dentro de um cronograma de trabalho para que as plantas desenvolvam-se rapidamente, entrando em produção precocemente.

 

Poda de condução e amarração

Após o plantio, conserva-se um Único ramo, que é conduzido até a latada, amarrado convenientemente ao tutor, a fim de obter uma planta de tronco bem ereto e evitar que se quebre pela ação do vento. Os ramos ladrões que saem do portaenxerto e as brotações laterais são eliminadas ainda novas, evitando-se desse modo a com petição com o ramo que está sendo conduzido. Quando o ramo ultrapassar a latada de uns 30 cm, procede-se à sua poda, deixando-se a gema imediata­mente abaixo do sistema de condução. Quando as gemas apicais do ramo podado brotarem, deixam-se apenas as duas Últimas brotações, que darão origem aos braços primários.

 

Limpeza

A partir do plantio é indispensável conservar as fileiras de plantas sempre limpas, para evitar que as mudas novas sejam abafadas pelas ervas daninhas. Nas entre linhas utiliza-se a roçadeira ou enxada rotativa para manter a vegetação rasteira ao solo.

 

Combate às formigas

Na fase inicial de desenvolvimento das videiras é muito importante que se dê combate eficiente às formigas, pois se estas atacarem na época de apareci­mento das primeiras folhas, é praticamente inevitável a perda das mudas. A melhor hora para localizar os caseiros e realizar seu controle com um formicida adequado é a partir das 17 horas.

 

Tratamento fitossanitário

Na fase de crescimento das plantas é necessário proceder ao controle preventivo das doenças passíveis de ocorrerem, sobretudo o oídio durante o ano todo e o míldio no período chuvoso. Desse modo, as plantas podem desenvolver-se sadias e com maior rapidez.

 

Irrigação

As regas deverão ser realizadas de acordo com o tipo de solo e com o sistema de irrigação adotado. Na fase de desenvolvimento inicial da cultura é muito importante que não haja limitação hídrica, o que acarretaria sérios prejuízos ao crescimento e engrossamento da cepa, em conseqüência dos entrenós muito curtos.

 

7. Nutrição e adubação

 

A produção de uvas de qualidade decorre, em grande parte, da nutrição equilibrada das videiras. O equilíbrio é alcançado quando as plantas recebem quantidades de nutrientes que atendem suficiente­mente às necessidades nutricionais da cultura para vegetar e produzir de maneira satisfatória.

A nutrição da videira compreende uma série de processos físicos, químicos, fisiológicos e biológicos, resultantes das interações entre as plantas e o meio no qual estão estabelecidas.

Nas áreas de clima tropical, por exemplo, a videira dá mostras de estar convenientemente nutrida quando após a colheita e durante o período de maturação dos ramos sua folhagem e seus brotos terminais não apresentam sintomas visuais de deficiência ou excesso de nutrientes.

 

7.1. Sintomas de deficiência e de excesso nutricional

 

Na videira, quando os elementos nutritivos nas folhas e nos frutos estão presentes em quantidades abaixo ou muito acima do nível normal, costumam manifestar-se anormalidades mais ou menos típicas que servem para identificar a deficiência do nutriente que as origina.

Tratando-se, porém, dos nutrientes que são consumidos em grande quantidade, como nitrogênio, fósforo e potássio, por exemplo, não é recomendável esperar que apareçam os sintomas de deficiências para proceder à fertilização, pois quando estes se manifestam, a produção das plantas e a qualidade dos frutos já terão sido reduzidas substancialmente.

No caso dos micronutrientes, quando do aparecimento dos primeiros sintomas, é possível ainda fazer-se as devidas correções na fertilização das plantas, sem que haja um decréscimo significativo na qualidade e na quantidade dos frutos. Entretanto, o mais aconselhável é monitorar-se o vinhedo através de análises foliares, realizando as fertilizações com os nutrientes necessários e em quantidades adequadas, evitando-se, desse modo, o aparecimento de sintomas de deficiência ou excesso nutricional.

 

7.1.1. Macronutrientes

 Nitrogênio

A falta desse elemento se manifesta inicialmente nas folhas mais velhas, que se tornam amareladas. Com a evolução da deficiência, as plantas apresentam um débil desenvolvimento, com o encurtamento dos entrenós, brotações contorcidas e avermelhadas, baixo percentual de pegamento dos frutos, resultando numa baixa produção, com cachos pequenos e desuniformes.

O excesso de adubação nitrogenada desequilibra a relação carbono/nitrogênio, que regula todo o mecanismo da diferenciação e indução das gemas florais, cuja conseqüência é a diminuição da fertilidade das gemas.

 

Fósforo

A deficiência desse elemento está ligada a redução do sistema radicular, ao retardamento no crescimento e à escassa lignificação dos teci­dos. Os sintomas aparecem primeiro nas folhas mais velhas, que ficam opacas e de coloração verde­azulada, entretanto eles só se manifestam quando realmente a deficiência é muito acentuada, o que geralmente não acontece no campo.

Potássio

A carência desse elemento interfere na síntese protéica, causando a elevação na quantidade de aminoácidos livres; retarda a maturação, e as plantas produzem cachos pequenos, duros, verdes e ácidos.

Os sintomas de deficiência de potássio manifestam-se primeiramente nas folhas mais velhas, sob a forma de um amarelecimento internerval em cultivares de uvas brancas, seguido de necrose da zona periférica do limbo que vai progredindo para o interior no tecido internerval. Em cultivares tintas, as folhas começam por apresentar uma coloração avinhada entre as nervuras, seguindo-se pela necrose progressiva dos tecidos do limbo.

As causas de deficiência de potássio nas plantas estariam associadas à adubação potássica deficiente, ao antagonismo N/K resultante de um excesso de nitrogênio, à ocorrência de falhas no manejo da irrigação e de danos no sistema radicular, assim como à menor capacidade de absorção do potássio pelas diferentes cultivares.

 

Cálcio

A falta desse elemento afeta particularmente os pontos de crescimento da raiz; nas folhas jovens a sua deficiência se manifesta por uma clorose internerval e marginal, seguida da necrose das margens, mas também pode provocar a morte dos ápices vegetativos.

 

 

Magnésio

As folhas velhas apresentam clorose internerval, enquanto as nervuras permanecem total­mente verdes. Em cultivares de uvas brancas as manchas cloróticas evoluem até a necrose dos teci­dos do limbo; em cultivares de uvas tintas as manchas adquirem coloração avinhada e também evoluem até a necrose do tecido.

Quando a carência de magnésio é muito acentuada, sobrevém o esgotamento geral das plantas. Nos cultivos irrigados, ela é bastante freqüente, sendo, pois, necessário redobrar a atenção para os sintomas desse problema.

 

Enxofre

A carência desse nutriente dificilmente é encontrada na videira, em virtude dos trata­mentos fitossanitários contra o oídio, nos quais o enxofre é utilizado como fungicida de contato, sendo então absorvido pelas folhas na forma de S02.

 

7.1.2. Micronutrientes

 

Ferro

Os sintomas de carência de ferro na videira manifestam-se inicialmente nas folhas novas, como uma clorose internerval do limbo, permanecendo um reticulado verde fino nas nervuras. Os sintomas evoluem para a necrose da margem das folhas e queda prematura das mesmas. Excesso de cálcio ativo no solo induz ao aparecimento do sinto­ma de deficiência de ferro, que nesse caso é denominado de clorose férrica.

Em solos maldrenados, com problemas de encharcamento, a redução do ferro para formas insolúveis é favorecida, tornando-o indisponível para as plantas.

 

 

Boro

A carência desse elemento manifesta-se com a morte dos ápices vegetativos, a diminuição dos entrenós, a emissão de feminelas e o envassouramento. Nos cachos florais, ocorre excessivo abortamento das flores, cuja conseqüência são os cachos muito raleados; a caliptra não se solta com facilidade por ocasião da florada, permanecendo sobre o bago em desenvolvimento. Pode sobrevir a necrose nos bagos, interna e externamente, além do dessecamento parcial ou total dos cachos. O boro entra na formação da parede celular, de modo a evitar o excessivo endurecimento da mesma. Em plantas deficientes, há o rápido endurecimento da parede, o que não permite o aumento normal no volume da célula.

 

Manganês

Sob condições de pH elevado, excesso de matéria orgânica, altos teores de P, Cu e Zn e períodos de seca, aparecem sintomas de deficiência de manganês. Todavia, muito mais freqüente e mais severa que a deficiência é a toxidez desse elemento em condições de solos ácidos das regiões tropicais e subtropicais. Em solos maldrenados, com problemas de encharcamento, acontece uma redução do manganês, que é liberado para a solução do solo em teores considerados tóxicos para as videiras. Os sintomas de carência consistem em uma clorose marginal e internerval não bem definida. A toxidez se manifesta com necrose internerval, evoluindo para um dessecamento total e queda das folhas.

 

Zinco

A carência desse elemento é detectada pelos seguintes sintomas: folhas muito pequenas, manchas amarelas como mosaico, assimetria das folhas, dentes muito agudos, alargamento ou fecha­mento do seio peciolar, folhas muito lobadas, cachos pouco compactos, desenvolvimento de muitas feminelas e entrenós curtos.

A deficiência do zinco está relacionada com pH elevado, altos níveis de adubação fosfatada, solos encharcados e sem aeração.

 

Cobre

Na videira não se verifica a carência de cobre. Ao contrário, em algumas situações podem-se observar os danos causados pela presença excessiva desse elemento, sob a forma de clorose das folhas e dos ramos novos (pelo bloqueio do ferro), redução do desenvolvimento do sistema aéreo e radicular, escassa germinação do pólen, resultando em baixa fertilização das flores e uma queda muito grande de bagos. A toxidez provocada pelo cobre decorre do acúmulo, no solo, de produtos contendo esse elemento, os quais são utilizados no controle do míldio na videira.

Os demais micronutrientes, como molibdênio, cobalto e cloro são úteis à videira em pequeníssimas quantidades. Não sendo observadas carências, pois as necessidades das plantas em relação a esses elementos são atendidas pelos teores existentes no solo.

 

7.2. Recomendação de adubação

A adubação de um vinhedo guarda estreita relação com o tipo de solo no qual foi estabelecido. Em solos de baixa fertilidade, há a necessidade de um maior aporte de nutrientes para suprir adequadamente as plantas. Em solos mais férteis a quantidade de adubos utilizados pode ser menor.

A adubação da videira deve ser levada a efeito, de modo que não provoque um desequilíbrio nutricional nas plantas, principalmente no que diz respeito aos macronutrientes. Como comentado anteriormente, o excesso de nutrientes causa igualou maior dano às plantas que a sua carência.

 

7.2.1. Análise foliar

Segundo Christensen e outros, citados por ALBUQUERQUE (1996), o diagnóstico das necessidade nutricionais da videira realizado através da análise de tecidos não só é muito eficaz como permite monitorar, quase que precisa­mente, o aporte de adubos e o uso dos nutrientes pelo vinhedo.

Os tecidos utilizados para avaliação do estado nutricional de um vinhedo são o limbo e/ou o pecíolo. Na Europa (França e Itália) as análises são realizadas em duas épocas, na floração e no início do amadure­cimento dos bagos, utilizando para a análise os limbos e os pecíolos juntos. Christensen e outros recomendam, nos Estados Unidos, a avaliação unicamente dos pecíolos, os quais são coletados quando as plantas se encontram em plena floração.

A amostragem de um vinhedo deve obedecer aos seguintes critérios:

a)      A área a ser amostrada deve estar localizada em solo, o mais homogêneo possível;

b)      As plantas que compõem a amostra devem apresentar o mesmo nível de vigor e de produção;

c)       As plantas com sinais visíveis de doenças deverão ser descartadas para a composição da amostra.

 

Os pecíolos são coletados de plantas uniforme­mente distribuídas no vinhedo a ser avaliado, sendo a amostra constituída por 80 a 100 pecíolos coletados, um por planta, da folha oposta ao cacho.

Os limbos devem ser descartados, preservando-se somente os pecíolos. Caso a amostra não seja imediatamente entregue ao laboratório, os pecíolos serão guardados em sacos de papel aberto, em local seco e ventilado, para facilitar a secagem da amostra, e evitar o problema de fungos.

 

A análise foliar também pode servir para identificar a deficiência ou o excesso de nutrientes numa área problema. Nesse caso, coletam-se os pecíolos das plantas portadoras de sintomas e os resultados serão comparados com os de plantas do mesmo vinhedo que não apresentem sinal algum de problemas nutricionais.

 

7.2.2. Adubações de cobertura na fase de crescimento

 

Com o objetivo de realizar-se uma adubação equilibrada. sugere-se que, na fase de crescimento das plantas as adubações nitrogenadas sejam parceladas em quatro aplicações de 25 g  por planta, a cada 45 dias nos solos arenosos, e duas de 50 g por planta, a cada 90 dias nos solos argilosos, iniciando a primeira aplicação 30 dias após o plantio e terminando na primeira poda de frutificação. O potássio e o fósforo devem ser aplicados de uma só vez, na fase de crescimento, seis meses depois do plantio. As doses são as recomendadas na Quadro 2.

 6.2.3.          Adubações de fundação na fase produtiva

Após a primeira poda de frutificação, deve-se adubar o vinhedo a cada ciclo vegetativo, utilizando­se esterco, fósforo, potássio e nitrogênio, de forma equilibrada, considerando sempre as necessidades da cultura. O esterco e o fósforo são aplicados 20-25 dias antes de cada poda de frutificação, em sulcos abertos alternadamente em cada lado da linha das plantas.

Nos ciclos do primeiro ano de produção, os sulcos devem ficar localizados a 50 cm de distância das plantas; no segundo ano, a 80 cm, e do terceiro ano em diante, a 100 cm. Essas distâncias relacionam-se com o crescimento do sistema radicular, que deve ser constante desde o momento em que a muda começa a expandir as raízes até o total estabelecimento da planta, quando as raízes deverão ocupar o máximo da área do solo que lhes é destinada.

 

7.2.4. Adubações de cobertura na fase produtiva

 

As adubações com nitrogênio e potássio são aplicadas em cobertura no local onde existir maior umidade e o mais próximo do sistema radicular, fazendo-se a seguir uma ligeira incorporação dos adubos.

As adubações nitrogenadas são parceladas em três etapas: aplica-se 30% da dose total quando as brotações atingirem 15 cm de comprimento, 30% na fase de chumbinho, e 40% logo após a colheita.

As adubações com potássio são parceladas em duas etapas: 30% da dose total é aplicada na fase de chumbinho e 70% na fase de amolecimento dos bagos.

As quantidades de nutrientes recomendadas acham-se descritas na Quadro 2.

As quantidades de nutrientes poderão ser alteradas de acordo com o monitoramento da cultura através de análises foliares.

As recomendações acima descritas são para adubação no solo; no caso de utilizar-se fertilização através da água de irrigação, haverá mudanças nas épocas e quantidades de nutrientes recomendados.

Por ser o sistema de fertirrigação altamente eficiente na administração de nutrientes às plantas, normalmente a quantidade de produto utilizado é bem menor.

 

7.2.5. Adubações foliares

 

É possível, com essas adubações, suprir parcialmente as plantas não só de nitrogênio, magnésio e enxofre, mas principalmente dos micronutrientes boro e zinco.

Na fase de crescimento, as adubações foliares são efetuadas a cada 20 dias, com formulações comerciais, iniciando-se 10 dias após a primeira adubação de cobertura, prosseguindo-se até a primeira poda de frutificação.

Na fase produtiva, procede-se às adubações foliares de acordo com as necessidades da cultura, normalmente determinadas por meio da análise foliar. Com o uso de uma formulação comercial adequada à cultura da videira, nas doses e épocas recomendadas pelo fabricante, raramente ocorrerão problemas de deficiências nutricionais de micronutrientes.

 

Quadro 2. Adubação da videira (ALBUQUERQUE, 1996, adaptado).

Nutrientes no solo

Fase de Desenvolvimento

Crescimento

Produção (ciclo)

 

 

Nitrogênio

(não analisado)

g de N / planta

80

100

120

150

180

200

Fósforo

(Mehlich - ppm P)

g de P2O5 / planta

0 – 10

100

70

70

70

100

120

11 – 20

80

50

50

50

100

90

21 – 30

40

30

30

30

60

70

Potássio

(Mehlich-meq.K/100ml)

g de K2O / planta

0- 0,10

80

80

100

120

150

200

0,11 - 0,20

60

60

80

100

120

160

0,21 - 0,40

40

40

60

80

90

120

 

 

8.Manejo do Vinhedo

 

As condições climáticas de temperatura e luminosidade prevalecentes no trópico sem i-árido favorecem uma intensa atividade fisiológica nas videiras, o que induz a uma precocidade de produção da cultura. A primeira colheita é obtida a partir de 12 meses do plantio; e a partir da terceira colheita a produção já atinge patamares comerciais.

Essa precocidade de produção, aliada à falta de um longo período de repouso, torna indispensável a adoção de um manejo adequado da cultura que preserve ao máximo a produtividade e a vida Útil das plantas. Para o melhor aproveitamento do vinhedo é necessário dar adequada formação às plantas jovens, realizar uma poda balanceada das plantas adultas e manter ainda um controle equilibrado entre a vegetação e a produção, através de podas verdes, desbaste de cachos e raleio de bagos.

 

8.1. Poda de formação

 

A poda de formação é a que induz o adequado desenvolvimento do tronco e dos braços primários e secundários nas plantas ainda jovens.

Após o plantio das mudas na área do vinhedo, conduz-se um ramo principal por planta, guiado por um tutor para que suba bem ereto até a latada. Os ramos ladrões que saem do porta-enxerto e as brotações laterais são eliminados quando ainda no­vos, evitando-se que venham a competir com o ramo que está sendo conduzido.

Quando o ramo principal ultrapassar a latada em cerca de 30 cm, efetua-se a sua poda. preservando-se a gema situada imediatamente abaixo do corte. O desabrochamento das duas gemas terminais. que em geral não é difícil, dá origem a dois ramos que serão conduzidos no sentido da linha das plantas e formarão seus braços primários (Fig. 14 B), os quais se estenderão por todo o espaço que lhes é destinado. Sobre esses braços, a intervalos de 35 - 40 cm, formam-se os braços secundários na medida em que o espaçamento definido permitir.

 

Um outro método de condução é aquele em que se utiliza um único braço primário, direcionado a favor dos ventos dominantes.

Sobre os braços secundários, através de podas sucessivas, formam-se as unidades de produção em torno de 2 a 3 por braço secundário, separadas de 15­20 cm uma da outra.

 

8.2. Período de repouso

 

N o trópico, as plantas de videira caracterizam­-se por um contínuo crescimento, que as capacita a produzir duas a três safras por ano. As cultivares de ciclos feno lógicos medianos produzem duas safras e meia por ano, em decorrência desse hábito de cresci­mento.

É importante ter-se, entretanto, entre uma safra e outra, um período de repouso de 20 a 30 dias, quando acontece a maturação dos ramos, com a fase final da diferenciação das gemas (crescimento do cacho a nível microscópio) e o acúmulo de hidratos de carbono. Para que tais atividades fisiológicas se processem, é necessário que as videiras tenham uma folhagem sadia, sem sintomas de deficiências nutricionais e ou doenças, o que permite que as plantas continuem fotossintetizando ativamente, resultando num acúmulo maior de substâncias de reserva.

É ainda nesse período que as plantas demonstram estar equilibradas nutricionalmente, pois é quando aparecem nitidamente os sintomas de carência ou excesso de nutrientes na folhagem.

Durante o período de repouso, é importante manter um certo nível de umidade no solo, para evitar que as plantas sofram estresse hídrico. Segundo Pereira & Paez, citados por ALBUQUERQUE (1996), a ocorrência de déficit hídrico no período de repouso compromete a brotação e a produção das videiras no ciclo seguinte. Como essa fase do ciclo fenológico da videira em clima tropical tem sido muito pouco estudada, há aspectos associados aos processos hormonais e metabólicos nela desenvolvi­dos que são praticamente desconhecidos.

 

8.3. Poda de frutificação

 

A poda de frutificação levada a efeito imediatamente após o repouso permite que se regule a estrutura produtiva das plantas, facilitando a obtenção de,colheitas satisfatórias e de excelente qualidade.

Através da poda de frutificação deixa-se em cada unidade de produção, um esporão de duas gemas e uma vara com quatro ou mais gemas. A finalidade do esporão é dar origem à vara e ao esporão da poda do ciclo subseqüente; enquanto que a da vara é a produção de cachos.

O número de gemas por vara é determinado pelo vigor das plantas e pela localização das gemas férteis; já a fertilidade das gemas, isto é, a sua capacidade de emitir brotações com cachos está deter­minada geneticamente em cada cultivar, sofrendo também influência externa das condições climáticas no momento da diferenciação floral, bem como do estado nutricional das plantas.

De modo geral, é recomendável deixar-se o menor número de gemas possível por vara e que seja compatível com a cultivar trabalhada. Pretende-se com essa recomendação minimizar os efeitos negativos da má brotação das gemas que ocorre nas áreas de clima tropical.

No caso da cultivar Itália, deixa-se em torno de quatro a oito gemas por vara, sendo que as gemas mais férteis estão localizadas da sexta até a oitava. Na “Piratininga”, as gemas férteis localizam-se da quarta à sexta, podendo-se realizar uma poda média com varas de quatro a seis gemas.

 

8.4. Aplicação de reguladores de crescimento

 

As videiras desenvolvidas em regiões tropicais caracterizam-se por apresentar um crescimento contínuo, no qual não ocorre senescência e abscisão natural das folhas, ou seja, elas não mudam de colo­ração e tampouco caem. Há, além disso, uma marcante dominância apical nas varas deixadas pela poda, assim como uma tendência à produção de cachos muito compactos, em conseqüência das temperaturas elevadas e da baixa umidade relativa do ar, que favorecem a fecundação das flores.

Essas características naturais do desenvolvi­mento das plantas podem ser modificadas pelo uso de reguladores de crescimento.

 

8.4.1. Brotação das gemas

 

As gemas da videira, sob condições de clima tropical, apresentam uma forte dominância apical, que é caracterizada pelo desabrochamento mais vigoroso das gemas terminais das varas, resultando numa brotação desuniforme e irregular da planta como um todo. Essa dominância está supostamente relaciona­da com a produção e translocação de reguladores de crescimento, tais como as auxinas.

As auxinas promoveriam o transporte de assimilados diretamente para a região meristemática da gema apical, bloqueando a disponibilidade dos nutri­entes para as gemas laterais, e também agiriam inibindo o desenvolvimento das conexões vasculares entre as gemas laterais e o tecido vascular principal.

Para diminuir os efeitos da forte dominância apical nas videiras, é conveniente utilizar alguns produtos químicos que forçam a brotação rápida e uniforme das gemas.

Conforme pesquisas desenvolvidas na região do Submédio São Francisco (Albuquerque e Albuquerque, citados por ALBUQUERQUE, 1996), os produtos mais eficientes para equilibrar a brotação são: a cianamida hidrogenada (H2CN2), o ethephon (ác. 2-cloroetil­fosfônico) e a calciocianamida (Ca CN2).

 

 8.4.2.Elongação da ráquis e dos pedicelos

 

As condições semi-áridas tropicais, com baixa um idade relativa do ar e temperaturas elevadas, favorecem a polinização e o pegamento dos frutos. Além disso, parece diminuir o comprimento dos pedicelos, resultando em cachos muito compactos, com bagos desuniformes e deformados, por estarem comprimi­dos uns contra os outros.

Para aumentar os pedicelos, facilitando a operação do raleio, pode-se aplicar 2 ppm de ácido giberélico em aspersão dirigida exclusivamente para os cachos florais, quando estes medirem 6 cm ou menos de comprimento. Esse tratamento deve ser realizado, de preferência, nas primeiras horas da manhã, para evitar problemas de fitotoxidade nos cachos florais.

Em cultivares de uvas com semente, como a “Itália” e a “Piratininga”, não se deve utilizar o ácido giberélico para aumentar o tamanho dos bagos, por causa do efeito nocivo que o mesmo tem sobre a fertilidade das gemas, diminuindo a produtividade do vinhedo.

 

8.4.3. Coloração dos bagos

 

A cultivar Piratininga e outras cultivares de bagos rosados ou tintos apresentam, principalmente no período de clima quente, bagos de coloração desuniforme, em virtude da formação deficiente de pigmentos antociânicos que respondem pela coloração da película que envolve as uvas, É possível corrigir esse problema pulverizando-se as plantas com uma solução de ethephon a 200 ppm no início de maturação dos cachos.

 

8.5. Condução da parte aérea

 

A condução da parte aérea das plantas em produção consta de um conjunto de práticas realiza­das para melhorar o aspecto e a qual idade dos cachos, bem como promover o equilíbrio entre a vegetação e a frutificação. A condução da parte aérea é mais utilizada nas cultivares para consumo “in natura”.

 

Amarração

Logo após a poda, efetua-se a amarração das varas, não apertando muito junto aos fios de arame, a fim de não prejudicar o seu crescimento transversal. Quando as novas brotações atingirem 40 cm, em média, devem ser amarradas, para que não se quebrem pela ação dos ventos, como também, para que as folhas não fiquem sobrepostas, o que iria diminuir a taxa fotossintética em relação a área foliar total das plantas. A amarração deve ser repetida à medida que os ramos forem crescendo, mantendo-se sempre a planta bem conduzida, o que evitará ramos caídos e emaranhados.

 

Esladroamento

É a remoção dos ramos estéreis, quando atingirem a faixa de 10 a 30 cm de comprimento, para não causar ferimentos e nem desequilíbrio fisiológico nas plantas, proporcionando aos ramos remanescentes maior crescimento. Devem-se eliminar os ramos que nascem do tronco, os que estão em excesso e as brotações duplas ou triplas originadas de uma única gema. O aparecimento de muitos ramos ladrões significa que o método de poda adotado é incorreto e há necessidade de uma poda menos severa. São deixadas, de modo geral, três brotações em cada vara.

 

Eliminação das gavinhas e despontamento dos ramos

As gavinhas devem ser eliminadas antes ou até a florada. Os ramos devem ser despontados quando apresentarem de quinze a vinte folhas e já tiverem ocupado o espaço a eles destinado. O objetivo dessas duas práticas é acelerar a maturação das gemas basais, evitar a filagem ou o desavinho, melhorar a fecundação das flores, induzir a melhor formação dos frutos e equilibrar a vegetação.

 

Desnetamento

Consiste no despontamento das feminelas ou ramos terciários, deixando-se apenas uma ou duas folhinhas que auxiliam na assimilação de nutrientes, tendo em vista a melhor formação dos frutos e das gemas frutíferas do ciclo subsequente. O desnetamento deve ser feito até o início da floração.

 

 

Desfolhamento

Deve ser feito no período de crescimento do ramo, com o propósito tanto de melhorar a ventilação e a insolação das videiras, como de facilitar o controle das doenças que atacam os cachos. Não se deve tirar mais de cinco folhas por ramo e. naquele que estiver com cacho, devem ser deixadas acima deste, dez a dezoito tolhas. Essa prática, entretanto, pode ser totalmente eliminada quando se faz o perfeito direcionamento e amarração dos ramos.

 

Desbaste de cachos

Consiste na remoção de cachos florais, antes da floração, e de cachos novos ou de parte deles, depois de os frutos se formarem. Eliminam-se os cachos dos ramos mais débeis, com poucas folhas, doentes ou abafados por excesso de ramos e folhas. O objetivo dessa operação é deixar a frutificação bem distribuída, evitando-se o amontoamento de cachos em alguns ramos e espaços vazios em outros.

Aumentando-se a relação entre as folhas e o número de cachos, proporciona-se melhor nutrição aos cachos remanescentes.

Uma poda mais longa, na qual se deixa maior número de varas com seis a oito gemas, e a aplicação de reguladores de crescimento destinados a melhorar a brotação das varas podem aumentar efetivamente a capacidade de produção da videira. Ademais, com o desbaste dos cachos, é possível obter uma safra de qualidade, sem que as plantas sofram danos posteriores.

Os cachos provenientes dos netos devem ser eliminados, tanto pelo fato de seu desenvolvimento estar atrasado como pela concorrência que eles fazem aos cachos já formados. Resumindo, pode-se dizer que o tamanho dos cachos está em função da superfície foliar das plantas e a relação mais equilibrada é de um cacho para dois ramos.

 

8.6.Descompactação dos cachos

A descompactação ou raleio dos bagos tem por objetivo dar o melhor aspecto possível aos cachos, através da eliminação de um certo número de botões florais ou, mais tarde, de bagos já formados em cada cacho, o que permite o desenvolvimento adequado dos bagos remanescentes.

Winkler e outros, citados por ALBUQUERQUE (1996) comentam que o raleio realizado na abertura das flores aumenta o volume dos bagos remanescentes em 32%, e quando realiza­do 10 dias após, o aumento chega somente a 18%. Evidenciando a importância da realização do raleio bem cedo. se possível, antes da florada, ou no máxi­mo, até o estádio de chumbinho (bagos com três a quatro milímetros).

Sempre que o raleio é feito precocemente, é necessário que se realize uma toalete nos cachos, quando os bagos se encontrarem no estádio de azei­tona. É importante salientar que o tempo dispendido com o raleio precoce e a posterior toalete dos cachos é menor do que aquele dispendido com o raleio realizado unicamente com tesoura no estádio de chumbinho.

O raleio precoce é bastante eficiente quando executado por mão-de-obra competente e responsável. Esta deve ser selecionada e treinada dentro da fazenda para que se conheça, previamente, a qualidade do trabalho que será feito. Do contrário, podem sobrevir resultados totalmente desastrosos para a empresa: cachos deformados e excessivamente raleados (banguelos).

A descompactação dos cachos na prefloração deve ser evitada nos períodos chuvosos, em virtude do problema de abortamento de flores e até mesmo de cachos, o que estaria possivelmente relacionado com a penetração dos fungos: Botrytis eAlternaria. Reco­menda-se, então, para esse período, o raleio com tesoura na fase de ervilha (cinco a seis milímetros), quando o cacho se torna mais resistente.

 

Raleio manual na prefloração

Os cachos são descompactados com a mão, dez dias antes da data prevista para floração.

 

Raleio com escova de plástico na prefloração

Os cachos são descompactados com uma es­cova de plástico apropriada, dez dias antes da data provável da florada

Pinicado

Os cachos são descompactados com a mão, logo após a formação dos bagos, quando estes apresentam menos que três milímetros de diâmetro.

 

Raleio com tesoura

Os cachos são descompactados com tesoura apropriada, quando os bagos atingirem cinco a seis milímetros de diâmetro.

 

9. Irrigação

 

Apesar de ser uma cultura que emprega diversos recursos tecnológicos muitos produtores aplicam um insumo considerado chave para o próximo milênio - água, sem nenhum critério, o que torna necessário a presença da Universidade e de pesquisadores locais imprescindíveis para realização de estudos e divulgação de resultados, atendendo a carência de conhecimento em relação aos efeitos de diferentes sistemas de irrigação na cultura da videira. 
        Esta, por muito tempo era realizada através do método de sulco e hoje, na maioria das áreas estão sendo empregados os métodos de aspersão sobre copa, no entanto, muitos já estabeleceram seus parreirais com sistemas mais avançados como a microspersão e outros mais tecnificados, empregam sistemas de gotejamento.A área irrigada por microaspersão tem sido aumentada em função da restrição hídrica regional, aliada à redução de custos operacionais. A região, durante o período de inverno,  tem sofrido com a escassez de água causada pelo pequeno porte de seus córregos, devido em parte a ausência de conservação do solo e de matas ciliares e isto tem gerado muita preocupação aos agricultores quanto ao volume de água utilizado, além de inviabilizar o aumento de área irrigada na região. 

A água é essencial para o crescimento e desenvolvimento de todas as partes da videira. No solo, afeta o crescimento do sistema radicular no que diz respeito à direção do crescimento, ao grau de expansão lateral, às ramificações e à profundidade de penetração das raízes, bem como à relação entre a massa foliar e o sistema radicular. À medida que se reduz a disponibilidade de água, diminui o cresci­mento do sistema radicular e da parte aérea. Nesse caso, as raízes são, de modo geral, menos afetadas que as brotações.

A primeira fase do ciclo vegetativo da videira caracteriza-se pelo crescimento acelerado das brotações tenras. À medida que escasseia a água no solo, a velocidade de crescimento decresce rapidamente, os entrenós diminuem e a folhagem das pontas, de uma cor verde-amarelada, toma-se verde-escura, semelhante ao das folhas maduras.

Os sintomas descritos permitem inferir sobre a disponibilidade de água no solo, denunciando a necessidade de mais água no vinhedo. Quando o déficit hídrico se prolonga, as folhas mais velhas adquirem um tom amarelado e a margem do limbo desseca, tendendo a se enrolar. Finalmente, as folhas mais próximas da base dos brotos secam e caem.

Uma redução repentina da água disponível no solo do vinhedo produz o murchamento da folhagem e das partes tenras dos brotos, seguida do amarelecimento e queda das folhas. Este tipo de murcha é comum quando as temperaturas são elevadas, os ventos são fortes e a água disponível no solo ocupado pelas raízes é escassa.

A produção vitícola é afetada pela redução da água disponível para as plantas, porque essa restrição, além de diminuir o tamanho potencial dos bagos e o comprimento e peso dos cachos, afeta também o conteúdo de sólidos solúveis e de outros componentes.

A deficiência de umidade nos primeiros estádios de desenvolvimento dos cachos reduz marcadamente o tamanho dos bagos, sem que este possa se recuperar com irrigações posteriores. No entanto, desde que eles tenham alcançado um tamanho satisfatório, uma redução moderada de água pode ser favorável, ao diminuir a taxa de crescimento dos sarmentos e estimular a acumulação de açúcares e pigmentação nos frutos.

 

9.1. Sistema de irrigação

A videira adapta-se igualmente bem aos métodos de irrigação por superfície, por aspersão e localizada.

Dentre os métodos de irrigação por superfície, vale destacar o sistema de rega por sulcos, em que se utiliza sulcos convencionais ou sulcos curtos, fecha­dos e nivelados. A derivação de água nesse sistema pode ser feita por sifão ou por tubos janelados.

No caso da irrigação por aspersão, pode-se utilizar o sistema de rega por aspersão 30bre copa de tipo móvel ou fixo.

Quanto à irrigação localizada, tanto o sistema de gotejamento como o de microaspersão são viáveis.

A escolha entre os sistemas de irrigação citados vai depender de uma série de fatores técnicos, econômicos e culturais associados a condições específicas do vinhedo. Entre os fatores técnicos destacam-se os seguintes:

I Recursos hídricos (potencial hídrico, situação topográfica, qualidade e custo da água)

 II  Topografia;

III Solos (características morfológicas, retenção de água, infiltração, características químicas e variabilidade espacial);

IV Clima (precipitação, vento e evapotranspiração potencial);

V Culturas (sistemas e densidade de plantio, profundidade efetiva do sistema radicular, altura das plantas, exigências agronômicas e valor econômico);

VI Aspectos econômicos (custos iniciais, operacionais e de manutenção

VII  Fator humano (nível educacional, poder aquisitivo, tradição, etc.).

 

De modo geral, os sistemas de irrigação por sulcos e por gotejamento são indicados para solos argilo-arenosos e argilosos, enquanto os sistemas por aspersão e por microaspersão mostram-se mais adequados para solos arenosos e areno-argilosos.

 

9.2. Manejo de água

O manejo de água está diretamente relaciona­do com o sistema de irrigação selecionado. Nos sistemas de irrigação por sulco e por aspersão, por exemplo, o nível de água disponível no solo deve ser mantido acima de 50%. No caso da irrigação localizada, o nível de água disponível no solo deve ser mantido entre 80 e 100%.

Recomenda-se, na irrigação localizada, que o manejo de água seja monitorado por meio de tensiômetros instalados em pontos correspondentes a 50% da profundidade efetiva das raízes e imediata­mente abaixo destas. A proporção recomendada é de três a quatro estações de tensiômetros instaladas numa parcela de solo uniforme e de tamanho não superior a dois hectares. A partir dessa parcela monitora-se a irrigação das demais áreas da propriedade que apresentem o mesmo tipo de solo.

As tensões de água no solo aceitáveis para o manejo das regas dependem dos tipos de solos cultivados. Para solos arenosos, as tensões podem variar entre 15 e 25 centibares; para os argilosos, podem alcançar de 40 a 60 centibares. As leituras dos tensiômetros servem, em ambos os ca­sos, para o ajustamento da lâmina ou do volume de água aplicado. Num solo cuja tensão de água varie entre 15 e 25 centibares, por exemplo, deve-se reduzir em 10% o tempo de rega quando a tensão permanecer abaixo de 15 centibares durante uma semana de irrigação. Por outro lado, quando a tensão for superior a 25 centibares, deve-se aumentar o tempo de rega em 10%.

É igualmente recomendável acompanhar a flutuação do lençol freático ao longo do tempo, através de poços de observação. Esses poços podem ser instalados em malhas quadradas de 250  x 250 m ou de 500 x 500 m. As leituras do nível do lençol freático feitas quinzenal ou mensalmente têm por finalidade identificar, em tempo hábil, os pontos críticos da área cultivada. Sugere-se que a linha de saturação seja mantida abaixo de um metro em relação à superfície do solo, para que em nenhum momento prejudique o aprofundamento normal do sistema radicular das videiras.

 

10. Doenças e Pragas

 

            As videiras em clima úmido e quente são mais sujeitas a doenças causadas por fungos. Assim o cultivo da videira requer uma série de medidas de controle, sem o quais inviabilizaria-se o cultivo de certas variedades. Dentre as principais, destacam-se:

 

10.1. Oídio

 

            Agente causal: Uncinula necator (SchW.) Burril (Oidium tuckeri Berk.). O patógeno encontra-se disseminado por toda a zona vitícola e se desenvolve bem em clima seco. A doença é favorecida pelo clima frio, pois o fungo se desenvolve desde temperaturas de 7°C à sombra ou luz difusa; porém, exposta à luz, perece. A doença se manifesta em toda a planta, sendo as partes verdes e tenras as mais atacadas, causando prejuízos nos brotos, nas flores e nos frutos.

            Nas folhas novas, observa-se retraimento e murcha do limpo. As flores atacadas caem e os frutos, quando em formação, paralisam o desenvolvimento e ocorre rachadura, devido à alteração sofrida pela casca.

            A principal medida de controle nos vinhedos comerciais é feita por meio do uso de fungicidas, principalmente à base de enxofre, que é mundialmente utilizado pelo seu baixo custo e elevada eficácia e fungicidas sistêmicos ,tais como benomil, tiofanato metilico, fenarimol e triadimefon (Celso Valdevino Pommer). Em regiões de clima quente, não se recomenda empregar unicamente fungicidas sistêmicos, devido ao aparecimento de raças resistentes a esses produtos.

 

10.2. Antracnose

 

Agente causal: Elsinoe ampelina ( de Bary) Shear (Splhaceloma ampelinum de Bary). O fungo dessa doença acha-se presente em todas as áreas onde, durante a vegetação e a fruticação, ocorrem chuvas freqüentes, sendo uma doença oriunda das condições úmidas, não exigindo grande temperatura para se desenvolver, é praticamente desconhecida na viticultura do Nordeste semi-árido. As variedades viníferas são mais suscetíveis que as americanas. 

No início da brotação da videira, a antracnose é a primeira doença a aparecer, atacando todos os órgãos verdes da planta, preferencialmente os tecidos tenros. O fungo se desenvolve sobre as folhas e os frutos. Nas folhas, forma mancha parda deprimida. As manchas podem, ao se desenvolver, causar rupturas, desintegrando as folhas. Nos frutos, surgem manchas pardas, arredondadas, denominado olho de passarinho, e eles chegam a se fender e expor as sementes.

O controle, durante o inverno, é feito com calda sulfocálcica a 32° Baumé. Utiliza-se 1L de calda para 8L de água. Durante a vegetação, recomenda-se a aplicação de calda bordalesa ou outro preparado cúprico a cada quinze ou vinte dias, Ziram, Zineb, óxido de cobre (Salim Simão et al. 1998).

 


             
Fig. 4. Sintoma de antracnose no ramo "cancros".    (Foto G. Nakashima).


          
Fig. 5. Bagas com sintomas de antracnose.
               (Foto: G. Nakashima).

 

 

 

10.3. Míldio

 

            Agente causal: Plasmopara viticola (Berk & Curtis) Berl. & de Toni. Esta doença é também conhecida como peronóspora, mufa ou mofo e causa sérios prejuízos à viticultura, podendo a produção ser perdida totalmente quando não forem efetuadas medidas de controle. Geralmente as variedades de uvas européias ( Vitis vinifera L. ) são mais suscetíveis ao míldio que as americanas e híbridas. É uma doença séria nas regiões úmidas e quentes.

 O míldio afeta todas as partes em desenvolvimento da videira. Nas folhas os primeiros sintomas são um amarelo pálido, na face superior folha (mancha de óleo),e, na face inferior, por florescência branca. São esporos do fungo que se disseminam facilmente.

As folhas, as flores e os frutos secam quando o ataque é intenso. Os frutos adquirem coloração cinza-azulada e mumificam-se. As variedades viníferas são mais suscetíveis que as americanas.

O controle pode ser feito com calda bordalesa, ferbam, carbendazin, Dithane M-45, Captan ou Zineb. A calda bordalesa é a que propicia melhor vegetação e, conseqüentemente, melhor produção (Salim Simão et al. 1998).

Além das doenças descritas, GALLI et al. (1968) citam ainda a podridão amarga (Melanconium fuligineum Cav) e a podridão da uva madura (Glomerella cingulata Ston).

A primeira causa dano aos cachos já formados e nos colhidos e armazenados. A doença, atingindo o engaço, dificulta a passagem da seiva e as bagas enrugam-se. Quando a doença atinge a baga, esta toma coloração parda, apodrece e cai. O sabor se torna amargo.

A podridão da uva pode ocorrer no pé ou durante o armazenamento e a comercialização. Os sintomas são manchas pardo-avermelhadas que chegam a recobrir o fruto todo, sobre as quais se notam pontuações ligeiramente salientes.

Os frutos atacando desprendem-se com facilidade, não apresentando, como no caso anterior, sabor amargo.

Recomenda-se, para o controle das duas doenças, o uso de Maneb eZineb, Benomyl, Dithane M-48 (Salim Simão et al. 1998).

 

Fig. 1. "Mancha de óleo" típica de míldio (Foto: G. Nakashima).


               
 Parte de baixo da folha com frutificação do fungo.
                             (Foto: G. Nakashima).

 

 

 


        
 Sintoma de míldio no cacho "grão preto". 
       (Foto: G. Nakashima).

 

 

 

  Tabela 1. Eficácia média de fungicidas recomendados para o controle do míldio baseado em resultados de três anos de avaliação. Bento Gonçalves, 1998.

Princípio ativo

Concentração
g i.a. (%)

Dose
g i.a./hl

Ação do produto

Eficácia
(%)

Classe toxicológica

Folpet

50

90

Contato

70 a 90

IV

Oxicloreto de cobre

50

137,5

Contato

<70

IV

Oxicloreto de cobre + Mancozeb

20 + 20

60 + 60

Contato

70 a 90

III

Sulfato de cobre

25

240

Contato

70 a 90

IV

Mancozeb

80

240

Contato

70 a 90

III

Ditianon

75

93.75

Contato

>90

II

Cymoxanil + Mancozeb

8 + 64

20 + 160

Penetrante + Contato

>90

III

Metalaxil + Mancozeb

8 + 64

24 + 192

Sistêmico + Contato

>90

II

 

 

10.4. Declínio da Videira

 

 

Agente causal: Eutypa lata (Pers.:Fr) Tul. et c. Tul. Libertella blepharis A. L. Smith). O declínio da videira tem sido, nos últimos anos, a principal doença desta cultura, em algumas regiões do município de Jundiaí (SP), principalmente sobre a variedade Niagara.

Em condições de campo, o agente causal tem desenvolvimento vagaroso, decorrendo 3 a 4 anos para a parreira atacada mostrar os sintomas iniciais do declínio. Os pés doentes manifestam definhamento progressivo que paulatinamente acaba pela morte da planta. O começo da doença se dá em seguida à operação da poda geral e, ao sobrevir o abrolhamento, a brotação nova vem muito desigual com os brotos sem uniformidade. As folhas se formam anormalmente menores, com o broto crestado, o limbo tem coloração amarela com áreas bronzeadas e nota-se logo ausência de florescimento. Grande quantidade de brotos morrem e secam ao atingirem meio a um centímetro de comprimento, assumindo coloração de palha. Estes aspectos constitui o primeiro sinal visível da presença da infecção. Esta se dá através dos cortes e ferimentos próprios da poda e, em sendo assim, a poda é a responsável pela principal transmissão do declínio.

Para o controle deve arrancar e incinerar todas as videiras doentes, bem como queimar a galharia e outros restos da poda. Antes desta operação, efetuar um rigoroso tratamento de inverno, tal como se faz para combater a antracnose;desinfetar com água sanitária todas as ferramentas utilizadas na poda dos pés afetados pelo declínio; na formação de novas parreiras, empregar estacas de cavalos e de garfo provindo de região onde não há o declínio das videiras.

    

 

10.5. Viroses

 

As viroses – doenças causadas por vírus – das videiras assumem, na viticultura atual, uma das maiores ameaças, a ela impondo prejuízos de considerável importância. Pela redução que determina à produtividade (redução do número e do tamanho dos cachos); pela restrição que ocasionam ao vigor e à longevidade das cepas alocadas.

Duas importantes viroses afligem, de longa data, a viticultura mundial: o nó-curto (court-noué, roncer, fanleaf) e o enrolamento da folha (enroulement, leaf roll).

O combate restringe-se a medidas preventivas: evitar o emprego de material de propagação (estacas, bacelos, garfos) infectado. Já que não se conhece, por enquanto, vetor algum do vírus, este passa das plantas atacadas para a sadia por via vegetativa.

 

10.6. Enrolamento da folha

            Embora nas cultivares viníferas esta virose cause sérios prejuízos, em cultivares americanas ou híbridas, por apresentarem maior tolerância, os efeitos negativos da doença são menos pronunciados, mesmo assim, podem causar perdas consideráveis na produção, afetando, inclusive, o teor de sólidos solúveis e a acidez titulável do mosto.
               A doença do enrolamento da folha é causada por um complexo de oito vírus (Grapevine leafroll-associated virus, GLRaV), embora cada um dos vírus do complexo possa ocorrer de forma isolada. No Brasil, já foram detectados os vírus GLRaV-1 e -3 e, mais recentemente, o GLRaV-2 em vinhedos paulistas.                                                                                                                                                                                      

As videiras americanas e híbridas não mostram os sintomas característicos da doença. Pode ser observado, em cultivares como   Niágara Branca, Niágara Rosada e Concord, leve enrolamento e, às  vezes, "queimadura" entre as nervuras principais, bem como redução no desenvolvimento da planta. Na cultivar Isabel, a redução no crescimento é o sintoma mais evidente. As cultivares de porta-enxertos não mostram qualquer sintoma nas folhas quando infectadas pelo vírus, o que torna impossível a distinção entre plantas sadias e doentes pela simples observação.


  
Sintomas característicos da 
         virose do Enrolamento da folha em cultivar

    Vinífera.
    (Foto: G. Kuhn)

 

10.7. Escoriose

            Agente causal:Phomopsis vitícola (Sacc.) Sacc. È uma doença importante em regiões com excesso de chuvas, principalmente quando, após a brotação, a planta permanece molhada por vários dias.

            A escoriose se manifesta principalmente na base dos ramos do ano, apresentando os seguintes sintomas: necroses fusiformes ou arredondadas escuras, rachaduras e escoriações superficiais no córtex. No outono os ramos poderão se tornar esbranquiçados a partir de sua base e conter pequenos pontos negros que são os picnídios do fungo. Os ataques podem ocorrer nas nervuras principais de folhas jovens, pecíolos e pedúnculo.
     No limbo foliar, forma manchas arredondadas de 3 mm a 15 mm de diâmetro, sendo escura no centro e amarela(cloróticas) na periferia.
     Os ramos de ano podem quebrar facilmente devido ao intumescimento da sua inserção. Devido à morte das gemas basais a poda deve ser realizada na parte mediana do ramo, que distancia muito a produção da cepa, causando desequilíbrio da planta.

            O controle é por meio do uso de material de propagação sadio, queima dos restos de cultura e uso de fungicidas.No inverno, reduzir o inóculo pela remoção e destruição dos ramos doentes e/ou tratamento com calda sulfocálcica antes do inicio da brotação.
     Na primavera, o controle deve ser realizado nos estádios inicias da brotação, por ser a fase mais sensível da planta, é nesta época que as condições climáticas são mais favoráveis ao patógeno. Sendo recomendados tratamentos nos estádios 05 (ponta verde) e 09 (duas a três folhas separadas).


 Sintomas de escoriose nos ramos.
(Foto: G. Nakashima).


 Sintomas de escoriose nas folhas.
(Foto: G. Nakashima).

 

 

 

10.8. Fusariose

      Agente causal: Fusarium oxysporum f.sp. herbemontis. Esta doença causa redução drástica da produtividade da videira por provocar a mortalidade de plantas, além de ser uma doença de difícil controle.

A fusariose é uma doença vascular, provocando interrupção na translocação da seiva. A doença reduz o crescimento de brotos, e provoca escurecimento interno da madeira, murchamento de folhas e de cachos. Os cachos murcham ainda verdes ficando aderidos aos ramos. As plantas infectadas podem morrer subitamente, normalmente em reboleiras. Em outras plantas pode-se verificar brotações no tronco, que também morrerão com a evolução da doença.

As medidas de controle são preventivas, pois o controle químico não é eficaz. As medidas preventivas recomendadas são: plantar em áreas livres da doença, adotar práticas que não provocam ferimentos ao sistema radicular, escolher solos bem drenados para a instalação do vinhedo, usar material de propagação sadio. Em áreas já contaminadas deve-se proceder ao arranquio das plantas infectadas com o máximo possível de raízes e queimá-las, aplicar cal virgem nas covas, evitar o uso de máquinas em áreas contaminadas e depois em áreas de vinhedos sadios, controlar a erosão para evitar o escoamento de águas superficiais de áreas contaminadas para áreas não contaminadas. A principal medida de controle é a utilização de porta-enxertos resistentes. O porta-enxerto Paulsen 1103 tem mostrado boa tolerância à fusariose, enquanto o porta-enxerto So4 é muito suscetível; a cv. Isabel de pé franco apresenta boa tolerância ao patógeno.  


 Sintoma de fusariose na região do tronco da planta. 
Corte transversal (Foto: L. Garrido).

 

 

10.9. Cancro bacteriano

 

Agente causal: Bactéria Xanthomonas campestris pv. Viticola. Foi identificada pela primeira vez no Brasil em 1998, em vinhedos do Submédio do Vale do São Francisco (PE e BA) e no Piauí. É atualmente, a doença bacteriana da videira mais importante, especialmente na Região do Vale do São Francisco, considerando a suscetibilidade das cultivares plantadas, a natureza da doença, que pode ocorrer de forma sistêmica (infecta toda a planta), e as condições climáticas favoráveis. Nas demais regiões vitícolas do país, embora ainda não seja conhecida, a doença tem uma importância potencial, visto que de modo geral as cultivares de Vitis vinifera são suscetíveis. O patógeno é transmitido principalmente através do material propagativo infectado e por meio de ferramentas utilizadas nas operações de desbrota, poda, raleio de bagas e colheita.

Os sintomas ocorrem na folha com pequenas manchas angulares escuras, circundadas ou não por um halo amarelado, distribuídas de forma esparsa ou concentradas próximo às nervuras e bordas das folhas. Nas nervuras e pecíolos podem aparecer manchas escuras, alongadas e irregulares. Nos ramos verdes e em ramos maduros, ocorre a formação de cancros e rachaduras longitudinais. No cacho, ocorrem fissuras e fendas necróticas no engaço e lesões escuras ligeiramente arredondadas nas bagas. Em cachos já formados, após a necrose da ráquis e de pedicelos, ocorre murcha das bagas. Os sintomas variam em intensidade, dependendo da cultivar afetada. No Submédio do Vale do São Francisco, a cultivar Red Globe e algumas cultivares sem sementes, principalmente, aquelas originadas da cultivar Thompson Seedless, têm se mostrado mais sensíveis, apresentando alta incidência em alguns parreirais. Cultivares suscetíveis têm a produção reduzida e as plantas infectadas, geralmente, produzem cachos com sintomas de cancro no engaço, o que torna a uva de mesa sem valor comercial.

            O controle mais eficiente da doença está na utilização de mudas e material propagativo sadio, de modo a evitar introdução da doença na propriedade. Especialmente em regiões onde a doença não é conhecida os cuidados devem ser redobrados, evitando-se a introdução de material propagativo das regiões onde a doença já foi detectada. Além do material propagativo deve-se controlar também a introdução de uva, especialmente para vinificação, pois a bactéria pode contaminar os cachos (pedúnculo, engaço), os quais, após a eliminação da cantina são distribuídos como matéria orgânica nos vinhedos, podendo transformar-se, assim, num meio de introdução e disseminação da bactéria nos vinhedos. Em região de ocorrência do cancro bacteriano, o manejo da doença deve ser feito, principalmente, no período seco, época desfavorável à infecção. Entre as principais medidas podemos citar a poda de ramos infectados, a poda drástica ou poda de recepa, a eliminação de plantas com altos níveis de infecção, a desinfestação de tesouras e de canivetes, a queima de restos de cultura, principalmente aqueles resultantes da poda de ramos e de cachos infectados e da eliminação de plantas doentes. No Brasil, ainda não há produtos registrados para o controle do cancro bacteriano em videira. Entretanto, produtos à base de cobre têm sido utilizados em pulverizações e pincelamentos.
     Na avaliação da resistência de vários materiais de videira ao cancro bacteriano, observou-se em condições de campo, que V. vinifera foi altamente suscetível à doença, enquanto V. labrusca apresenta certa resistência.

 


     
 Sintomas em ramos e folhas 
       causados pela bactéria Xanthomonas campestris  
    pv. viticola.

    (Foto: G. Kuhn).

 

 

11. Pragas

 

A videira, à semelhança de outras culturas, é suscetível ao ataque de vários insetos e ácaros. Até a presente data, entretanto, as pragas não têm sido consideradas um fator limitante para a produção vitícola no Vale do Submédio São Francisco, uma vez que vêm sendo eficientemente controladas com o uso de agroquímicos.

 

11.1. Cochonilhas

As cochonilhas são insetos, de modo genérico, reconhecíveis porque vivem grudados ao caule, tronco, sarmentos e bacelos das parreira, que danificam as plantas através da sucção de seiva, cobertos por escudo ceroso, às vezes duro e resistente, outras vezes mais facilmente atacáveis por remédio. Provocam fitotoxicidade devido à injeção de enzimas digestivas, depositam excreções açucaradas nas folhas, resultando no aparecimento da fumagina e, às vezes, são responsáveis pela transmissão de agentes patogênicos. Como medida de controle, recomenda-se a poda de inverno que ajuda a eliminar o inseto dos ramos infestados. Após a poda, deve-se pincelar com sulfato de ferrro a 30% ou, mais adotado atualmente, pulverizaçõe antes do inchamento das gemas, quer com calda sulfocálcia a 38 Baumé (1 litro de calda + 8 de água), quer com pulverizações de dinitro-ortocresol (Rafatox, Selinon, EK 54), a 1% em água, ou ainda, com mistura de ½ litros de Dinoseb( Gebutox) + 2 litros de óleo mineral miscível + 100 litros de água (Julio Seabra Inglez de Souza et al.1996). Associam 1% de óleo mineral ou vegetal para auxiliar na ação dos inseticidas, porém, dependendo dos cultivares, como a Concord, pode ocorrer fitotoxicidade, sendo necessário utilizar menores concentrações.É importante que o controle seja direcionado à fase de ninfa, que geralmente ocorre no início da brotação, visto que quando a fêmea está completamente desenvolvida, os inseticidas não atingem os ovos mantidos sob a carapaça, reduzindo a eficiência do tratamento. Além disso, o período de alimentação do inseto é maior, aumentando os danos à planta. As espécies descritas a seguir são importantes em vinhedos da região Sul do Brasil.

 

 Parda ou do ramo-novo 

 

 Parthenolecanium persicae (Fabricius, 1776) (Hemiptera: Coccidae): : A cochonilha-parda apresenta uma geração por ano, reproduzindo-se

por partenogênese no período de outubroa de zembro.

 

 

 

Cochonilha-parda em ramos de videira.
(Foto: M. Botton)

 

   

 

 

 

Cochonilha-parda em ramos de videira.
             (Foto: M. Botton)

 

Cochonilha-do-tronco

 

Hemiberlesia lataniae (Signoret, 1869), Duplaspidiotus tesseratus (Charmoy, 1899) e D. fossor (Newstead, 1914) (Hemiptera: Diaspididae): As cochonilhas-do-tronco estão freqüentemente associadas aos vinhedos, principalmente da cultivar Niágara, sendo muito semelhantes entre si.

 

 


     
Cochonilha-do-tronco.
        (Foto: M. Botton)

 

Cigarrinha-das-fruteiras

 

    Aethalion reticulatum (L., 1767) (Hemiptera: Aetalionidae): Como este inseto apresenta hábito gregário, as ninfas (Figura 8) são facilmente destruídas manualmente, o que pode ser feito no momento da poda de inverno.

 

Cigarrinha-das-fruteiras em ramo de videira.
   (Foto: M. Botton).

 

11.2. Ácaros da videira

 

Os ácaros que atacam a videira têm sido mais prejudiciais às cultivares viníferas produzidas em regiões tropicais, onde o clima é seco, favorecendo a multiplicação. A espécie que mais destaca é o ácaro branco.

Ácaro branco

Polyphagotarsonemus latus (Banks, 1904) (Acari: Tarsonemidae): O ácaro branco é uma praga polífaga, sendo que na cultura da videira o ataque resulta num encurtamento dos ramos devido a alimentação contínua nas folhas novas. Nas situações de elevada infestação, o controle deve ser realizado com acaricidas específicos. Em baixas infestações, pode ser empregado o enxofre, direcionando-se o tratamento às brotações novas. Entretanto, o uso do enxofre pode causar fitotoxicidade em cultivares americanas.

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    Dano do ácaro branco em ramos de videira.   (Foto: M. Botton).

 

11.3. Mosca-das-frutas

A mosca-das-frutas tem sido relatada danificando principalmente uvas de mesa, embora em vinhedos destinados ao processamento os danos ainda não tenham sido avaliados. Suas larvas vermiformes e sem pernas causam destruição parcial da polpa, determinando seu posterior apodrecimento. Das moscas de frutas, a que mais comumente estraga a uva é Ceratitis capitata Wiedl, internacionalmente conhecida como mosca do Mediterrâneo; tem aproximadamente o tamanho das moscas caseiras, de coloração amarelada-marrom, com tórax pintado de preto e branco e asas desenhadas mosaicos.

O melhor combate consiste em tratamentos atrativos envenenados (iscas) ou seja, pulverizações com solução de Malathion ou Fenthion + melaço. Outra receita é dimethoate (Cygon, Fentron, Roxion); vercaptothion (Avigard, Chemthion, Datathion, Extermathion, Maladrex, Malasol, Malathion) ou trichlorfon (Danex, Dipterex) + um atrativo que pode ser açúcar ou proteína de peixe solúvel (cheiro forte que chama as moscas para a isca mortal) + água (Julio Seabra Inglez de Souza et al. 1996). Exemplo: 300g de dimethoate 20% pó solúvel + 600g de proteína de peixe solúvel +100 litros de água. Aplicar 50 litros/há.

Além destes remédios, que são eficiente, há ainda as armadilhas à base de metil-eugenol, que atraem os machos das moscas e que, uma vez aprisionados, são facilmente liquidados.  

Mosca-das-frutas fêmea (esquerda) e macho (direita). 
(Foto: E. Hickel).

 

 

 

11.4. Filoxera

 

A Filoxera ( Phylloxera vitifoliae) é um inseto sulgador de menos de 2 milímetro de comprimento, dificilmente perceptível a olho nu, munido de um bico com o qual suga a seiva das folhas e raízes, da videira para a sua alimentação. Para o controle desta praga, não existem inseticidas que possam ser empregados de forma econômica para o controle do inseto nas raízes. O emprego de inseticidas neonicotinóides auxilia na redução de infestações no sistema radicular, porém, de forma isolada, não são eficientes para evitar que ocorram prejuízos à cultura, além da possibilidade de selecionar populações resistentes. A maneira mais eficiente para evitar os danos do inseto é através do emprego de porta-enxertos resistentes. De modo geral, todos os porta-enxertos empregados na região de clima temperado são resistentes.

 


 Nodosidades causadas pela filoxera em raízes de videira. 
(Foto: M. Botton).


 Galhas da filoxera em folhas de porta-enxerto. 
(Foto: M. Botton).

 

 

 

 

11.5. Pérola-da-terra

 

A Pérola-da terra, Eurhizococcus brasiliensis (Hempel, 1922) (Hemiptera: Margarodidae) A pérola-da-terra  é uma cochonilha subterrânea que ataca as raízes de plantas cultivadas e silvestres. O inseto é considerado a principal praga da videira sendo responsável pelo abandono da cultura em várias localidades devido as dificuldades de controle. A sucção da seiva efetuada pelo inseto nas raízes provoca um definhamento progressivo da videira, com redução na produção e conseqüente morte das plantas.

Para prevenir sua introdução em áreas indenes, sugerem-se as seguintes medidas: não plantar estacas enraizadas ou mudas de videira procedentes de locais onde a praga ocorra; evitar o plantio na propriedade de plantas hospedeiras da praga, procedentes de áreas infestadas; tratar as mudas de videira dormentes mediante imersão em água quente a 50°C por cinco minutos ou expurgo com fosfina por perído de três dias. Já em áreas onde a praga está presente pode-se proceder a aplicação de inseticidas sistêmico granulados no solo (Botton et al. 2000) verificaram eficiência de tiametoxã e de imidaclopride; o primeiro, em formulação granulada, pode ser aplicado diretamente no solo, mediante a abertura de sulco ao redor da planta, o segundo deve ser diluído em água e regado no solo, na região onde se encotra o sistema radicular da videira.  

 O método ideal para controle dessa praga seria o uso de porta-enxertos resistentes. Pesquisas nesse sentido vêm sendo conduzidas pelo IAC na região de Angatuba, Sp, e área infestada pelo inseto, onde o porta-enxerto IAC 571-6 apresentou resistência moderada, em comparação com Ripária do Traviú. Ainda nessa linha de pesquisa, (Soria et al. I999) também verificaram comportamento diferenciado de porta-enxertos de videira derivados de Vitis rotundifolia, os quais mostraram-se mais resistentes do que porta-exertos pertencentes a difernetes espécies de Vitis, em solo infestado por E. brasiliensis, na região de Bento Gonçalves, RS.

 


      
Pérola-da-terra em raízes de videira.
        (Foto: G. Kuhn).

 

12.  Colheita

 

12.1.     Previsão de colheitas e produtividade

 

As condições tropicais favoráveis ao cresci­mento contínuo das videiras permitem que a época das podas sejam reguladas pela demanda de mercado, podendo-se obter colheitas escalonadas ou concentra­das. Sabendo-se que os ciclos feno lógicos das cultivares Itália e Piratininga são de 110 a 120 dias e que o período de repouso entre os ciclos é de 30 dias, estabelece-se que uma área pode produzir duas vezes e meia ao ano de forma equilibrada e sem que as plantas sejam esgotadas.

No processo produtivo da videira é importante que se faça uma previsão da quantidade de uvas a serem colhidas em função da demanda. Para estimar a produtividade de um vinhedo, os seguintes cálculos são possíveis:

Ø        através da poda chega-se a um padrão para a área de unidades de produção por planta (UPP) que é calculado pela seguinte fórmula:

UPP = BS x UP, em que:

BS = braços secundários por planta;

UP = unidades de produção por braço secundário

Ø        para o cálculo do total de cachos por hectare (CPH), tem-se que:

CPH = UPP x NBF x pl/ha, em que:

UPP = unidades de produção por planta ou varas por planta;

NBF = número de brotação férteis;

Pl/ha = plantas por hectare, de acordo com o espaçamento.

 

Exemplo:

Supondo-se que num vinhedo da cultivar Itália estabelecido no espaçamento de 4 x 2 m (1.250 plantas/hectare) todas as plantas fiquem, após uma poda bem executada, com cinco (5) braços secundários e que cada braço tenha três (3) unidades de produção, ou seja, três varas produtivas com oito gemas cada, e considerando-se a fertilidade destas como sendo de três cachos em média, tem-se, pela aplicação das fórmulas:

 

UPP = 5 x 3 = 15

CPH = 15 x 3 x 1.250 = 56.250 cachos/ha

 

Dispondo-se de 56.250 cachos por hectare e sabendo-se que o peso ideal dos cachos, para fins de exportação, é de 400 a 500 g, calcula-se que a média de produtividade da área será a seguinte:

 

56.250 cachos/ha x 0,450 kg = 25.312 kg/ha

 

Para que o cálculo da produtividade de uma área possa ser preciso é indispensável que as podas e a condução dos ramos sejam bem executadas, que as plantas estejam nutricionalmente bem equilibradas, não havendo problemas com a fertilidade dos ramos brotados.

 

12.2.Ponto de colheita

 

A maturação das uvas é um processo fisiológico que se caracteriza pelo incremento do conteúdo de açúcar, a diminuição da acidez, o aumento das antocianinas responsáveis pela coloração da película das uvas rosadas e pretas e a modificação da textura e do aroma típicos de cada cultivar.

É de fundamental importância que a colheita dos cachos seja realizada no ponto ideal para o consumo, pois as uvas cessam o processo de maturação após terem sido colhidas, permanecendo inalterados os teores de açúcares e de ácidos.

Normalmente, as uvas são colhidas quando o teor de sólidos solúveis atinge nível superior a 15° Brix, uma vez que, sob condições tropicais, elas são menos ácidas e apresentam boa palatabilidade, ainda que possuam um teor de açúcares comparativamente menor. O teor de açúcar das uvas é determinado pelo refratômetro.

Outro aspecto, de relevante importância, associado às uvas colhidas para exportação, diz respeito ao tamanho dos bagos, que devem medir, no mínimo, 22 milímetros de diâmetro. Quando o vinhedo é conduzido segundo as recomendações desta publicação[1][1], o percentual de uvas com esse diâmetro é alto, resultando no aproveitamento quase que total dos cachos para exportação.

 

12.3.Colheita manual

 

Os colheitadores devem colher os cachos ma­duros, cuja película apresente coloração o mais uni­forme possível, cortando os pedúnculos bem compridos, o que evita a desidratação do engaço. Os cachos são cuidadosamente colocados, em camada única, em contentores próprios para colheita com 10 kg de capacidade. Esses contentores devem ser revestidos com um forro de polietileno expandido ou similar de 4 mm de espessura, para que não haja danos mecânicos nos cachos.

A manipulação dos cachos pelos trabalhadores deve ser mínima, para evitar que as uvas percam a pruína (cerosidade natural), que lhes dá um aspecto de frescor e as tomam apetecíveis para os consumidores.

É conveniente que a colheita seja feita nas horas mais frescas do dia e que os contentores sejam imediatamente levados para o setor de embalagem da fazenda. Desse modo, as uvas apresentarão menor tem peratura, demorando menos tempo para perder o calor do campo.

 

12.4. Embalagem

 

A embalagem das uvas pode ser feita em galpões abertos ou fechados, com refrigeração (“packing house”). Tratando-se de frutas para exportação, é muito importante que o produtor disponha de um local bem sombreado e arejado onde possa embalar as uvas e que as caixas não fiquem expostas ao sol, quer se trate dos contentores que chegam do campo ou das caixas de uvas embaladas.

Os cachos são limpos e os bagos danificados e ou muito pequenos são eliminados. A seguir, são selecionados, segundo a classificação e a categoria a que pertencem.

Utilizam-se, para embalar as uvas, caixas de papelão parafinado, especificamente confeccionadas para esse fim.

 

12.5.     Armazenamento

 

Uma vez colhidas e em baladas, as uvas devem ser armazenadas e transportadas sob condições adequadas, para que possam chegar ao consumidor em ótimas condições de consumo. Os seguintes cuidados são, pois, indispensáveis:

 

Tratamento com anidrido sulfuroso

Para retardar a ocorrência de podridões por fungos nas uvas que vão ser armazenadas, recomenda-se fumigá-las com anidrido sulfuroso. Este tem uma ação fungicida, que elimina todos os fungos que existem sobre os cachos e também conserva a colo­ração verde da ráquis por mais tempo.

A aplicação do anidrido sulfuroso pode ser feita de diferentes maneiras, seja em câmaras de fumigação, pela queima de enxofre ou pela liberação direta do gás comprimido proveniente de botijões, seja mediante a colocação em cada caixa de uva, de um papel gerador dessa substância.

 

Refrigeração

A elevada transpiração das uvas colhidas de­corre da alta temperatura com que as frutas chegam do campo. É necessário, portanto, submetê-las a um pré­-resfriamento por duas a três horas, a fim de provocar a queda substancial dessa temperatura, com vistas à uma melhore mais prolongada conservação do produto.

Depois do pré-resfriamento, as caixas são co­locadas em câmara fria para conservar as uvas, caso elas não sejam comercializadas de imediato.

 

13.    Referência Bibliográfica

 

Pommer, Celso Valdevino. Ed Uva: tecnologia de produção, pós-colheita, mercado/editado pr C.v.Pommer, 2003.

Salim Simão Tratado de fruticultura. –Piracicaba: FEALQ, 1998.

Uvas para o Brasil / Coordenação de Julio Seabra Inglez de Souza. Piracicaba: FEALQ, 1996

Fortunato Garcia Braga  Cultura da uva niágara rosada /.- São Paulo: Nobel, 1988.

GALLOTTI, G.J.M. & GRIGOLETI JÚNIOR, A. Doenças fúngicas da videira e seu controle no Estado de Santa Catarina. Florianópolis, EMPASC, 1990.

Embrapa Uva e Vinho Sistema de Produção, 2ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica, Jul./2003