PRODUÇÃO DE MUDAS DE ABACAXI

    O abacaxizeiro  é uma das fruteiras tropicais mais cultivadas no Brasil, além de ser uma excelente fonte de renda tanto pela comercialização do fruto in natura como pela sua industrialização. A cultura do abacaxi é uma atividade que se caracteriza por absorver mão-de-obra no meio rural, contribuindo para gerar emprego e renda. Em 2000, foram produzidas mais de um milhão e 300 mil toneladas, em área pouco superior a 56.000 hectares.
    O método convencional de propagação do abacaxizeiro é feito por meio de mudas que são originadas de brotações laterais da planta. O uso de mudas de qualidade inferior pode acarretar problemas como: presença de insetos e doenças, amadurecimento desuniforme da fruta e baixa produtividade.
    O sucesso da cultura do abacaxi depende da qualidade da muda e da sanidade do material propagativo que condicionam a formação de frutos de qualidade.
    A muda do abacaxi micropropagada via cultura de tecidos constitui uma nova alternativa para produção com alto padrão fitossanitário, além de possibilitar maior vigor e uniformidade. As etapas para essa produção são: seleção das plantas; coleta das mudas tipo filhote que fornecerão as gemas para o cultivo; preparo da haste, desinfestação, excisão das gemas e inoculação em meio de cultura; cultura das gemas em meio de  estabelecimentos de plântulas estoques in vitro; preparo das plântulas estabelecidas e inoculação em meio de multiplicação de gemas; inoculação das gemas multiplicadas em meio de alongamento; transferência das plântulas obtidas para casa de vegetação ou telado para fins de aclimatação e por último, a avaliação a campo das mudas micropropagadas.
    Os plantios de abacaxi são feitos com mudas de vários tipos, tais como coroa (brotação do ápice do fruto), filhote (brotação do pendúculo, que é a haste que sustenta o fruto), filhote-rebentão (brotação da região de inserção do pendúculo no caule ou talo) e rebentão (brotação do caule). Cada tipo possui as seguintes características, vantajosas ou não, que devem ser consideradas quando da escolha e manejo do material de plantio.
 
Coroa
Muda pouco disponível, pois permanece nos frutos vendidos nos mercados de frutas frescas; é menos vigorosa, de ciclo (do plantio à colheita) mais longo, mais facilmente afetada por podridões, sobretudo podridão-negra (Chalara paradoxa), mais uniforme em tamanho e peso, gerando também plantios com plantas de porte e desenvolvimento mais uniformes.
 
Filhote ou muda-de-cacho
Muda de vigor e ciclo intermediários, menos uniforme que as coroas, porém mais que os rebentões, de fácil colheita e grande disponibilidade, no caso da variedade Pérola, a mais cultivada no Brasil.
 
Rebentão
Muda de maior vigor, ciclo mais curto, de colheita mais difícil, menor uniformidade em tamanho e peso, baixa disponibilidade na variedade Pérola e mais usada no caso da variedade Smooth Cayenne. É mais suscetível à ocorrência de florações naturais precoces.
 
Filhote-rebentão
Muda de reduzida expressão, pois é de produção limitada, apresenta características intermediarias entre filhote e rebentão, podendo ser usada indistintamente com os dois últimos tipos de mudas apresentados.
Além desses tipos de mudas geradas na própria planta, existem as produzidas em viveiro ou laboratório, por meio de técnicas de multiplicação apropriadas, conforme mencionadas a seguir.
 
Muda de seccionamento do caule
Muda produzida em viveiros, a partir de pedaços do talo (caule) das plantas, caracterizando-se pela melhor sanidade, sobretudo em relação à fusariose; pelo vigor e pelas demais características (ciclo, grau de uniformidade) próximos às mudas do tipo coroa.
 
Muda produzida in vitro
Muda obtida em laboratório por meio de técnicas de cultura de tecidos, de excelente sanidade, mais cara uso mais restrito, porém importante para a multiplicação rápida de novas variedades geradas em programas de melhoramento genético.
Há ainda as mudas obtidas por métodos que quase não têm tido aplicação no Brasil, como o da destruição do meristema apical (olho) de abacaxizeiros para estimular a eliminação precoce e em maior número de mudas do tipo rebentão, e o do tratamento químico, com a finalidade de transformar flores em mudas pela aplicação de fitorreguladores do grupo das morfactinas, logo após o tratamento de indução floral das plantas. Tais técnicas, desenvolvidas em países como Côte d'Ivoire, África do Sul e Austrália, para aumentar a disponibilidade de material de plantio da cultivar Smoooth Cayenne, não são aplicadas no Brasil devido às suas limitações quanto à sanidade das mudas obtidas. Essas técnicas não oferecem a segurança desejada com relação ao controle da fusariose, doença eminentemente brasileira e sem maior relevância naqueles países.
 
Obtenção e manejo de mudas convencionais
A muda de boa qualidade é a base para o sucesso de qualquer cultura. Daí a importância da utilização de mudas de boa procedência, isto é, que sejam sadias (livres da fusariose e de cochonilhas) e vigorosas, colhidas em plantios em bom estado fitossanitário, onde o número de plantas e frutos doentes (podres) tenha sido mínimo. As mudas colhidas em plantas sadias devem ser isentas de pragas, doenças e danos mecânicos, devendo-se descartar rigorosamente aquelas que apresentarem o menor sinal de goma ou resina.
Os tipos de mudas mais usados no Brasil são os filhotes ou mudas-de-cacho, que aparecem logo abaixo da base do fruto, e os rebentões, que brotam do talo da planta.
Após a colheita dos frutos, as mudas do tipo filhote devem permanecer aderidas à planta-mãe para continuarem o seu crescimento e atingirem o tamanho adequado (mínimo de 30 cm) para o plantio. Essa etapa é chamada de ceva, que pode ter a duração de dois a seis meses.
Para melhorar o vigor e o estado fitossanitário das mudas durante a ceva podem ser recomendadas as seguintes práticas culturais: continuação da irrigação, am áreas irrigadas; pulverização com inseticida-acaricida para o controle das cochonilhas e dos ácaros que infestam a cultura; adubação suplementar, via pulverização foliar, com uréia a 3% e cloreto de potássio a 2%.
A colheita das mudas deve ser feita quando a maioria delas atingir o tamanho adequado. Corta-se o pedúnculo com todo o cacho, o que facilita o transporte e aumenta o rendimento do trabalho. Em seguida, os filhotes são destacados do cacho, fazendo-se, nesta ocasião, uma seleção preliminar. Eliminam-se todas as mudas doentes, com presença de goma, murchas e muito pequenas. Algumas vezes, aparece na base da muda do tipo filhote um fruto em miniatura, que deve ser arrancado nesta safe, para evitar que se constitua em foco de podridão da muda após o plantio.
Para reduzir a perda de boas mudas, ao utiliza-las como embalagem natural para o transporte do fruto (no caso da Pérola), deve ser feita sangria no cacho, ou seja, um corte parcial que permita deixar a maior parte das mudas na planta para ser aproveitada posteriormente. A colheita de rebentões é mais difícil e mais exigente em relação à mão-de-obra necessária, haja vista estarem firmemente ligados ao talo da planta-mãe, sendo necessário um puxão lateral antes de arranca-los.
A etapa seguinte, chamada de cura, consiste na exposição das mudas ao sol, com a base virada para cima, sobre as próprias plantas-mãe ou espalhando-as sobre o solo em local próximo ao plantio, durante três a dez dias. A cura visa cicatrizar a ferida que ocorre quando a muda é destacada da planta, além de diminuir a população de cochonilhas. Essa prática também elimina o excesso de umidade das mudas, reduzindo a ocorrência de podridões, sobretudo em períodos de clima úmido.
As mudas curadas devem ser selecionadas por tipo (separando os filhotes dos rebentões) e faixas de tamanho (30cm a 40cm; 40cm a 50cm; 50cm a 60cm), para plantio em talhões separados. Durante a seleção deve ser efetuado um descarte rigoroso de mudas defeituosas (com podridão, exsudação de resina ou lesões mecânicas) ou com características diferentes do padrão da cultivar. Mudas contaminadas pela fusariose devem ser queimadas ou enterradas, para reduzir os focos dessa doença. Entretanto, mudas que possuem apenas folhas basais com seus bordos ou ápices secos não devem ser eliminadas, desde que o cartucho central esteja em perfeito estado.
Caso se observe alta infestação das mudas com cochonilhas, é recomendado o seu tratamento por meio de imersão, durante três a cinco minutos, numa calda com inseticida-acaricida fosforado. Esse procedimento não é eficaz para o controle da fusariose no material de plantio, uma vez que as mudas já doentes não podem mais ser recuperadas por meio da aplicação dos fungicidas disponíveis, que não têm efeito curativo.
No caso da cultivar Smooth Cayenne, que, com freqüência, produz número reduzido de mudas do tipo filhote, os rebentões têm que ser aproveitados como material de plantio, tornando o seu manejo muito importante. Em geral, apenas um percentual relativamente pequeno (inferior a 40%) das plantas apresenta um ou, raras vezes, dois rebentões em formação. Após essa fase, os rebentões continuam seu crescimento, atingindo tamanho adequado para o plantio após período bastante variável, com duração de dois a dez meses. Podem-se uniformizar e acelerar a emissão e o desenvolvimento dos rebentões, efetuando-se um corte das plantas à altura da base do pedúnculo (haste que sustenta o fruto e as mudas tipo filhote), com facão ou roçadeira (Figura 4). Tal prática, feita após a colheita do fruto e das mudas do tipo filhote, facilita, ainda, a colheita dos rebentões.
 
Produção de mudas sadias em viveiros
Esta forma de propagação do abacaxi consiste na produção de mudas (plântulas) a partir de gemas existentes nas axilas das folhas, inseridas no talo (caule) das plantas. As gemas brotam e crescem quando o talo é cortado em pedaços, contendo pelo menos uma gema cada uma, cujas secções de talo são adequadamente cultivados em viveiros. O seccionamento do talo permite o exame visual das suas partes internas e, portanto, o descarte de todo o material afetado pela fusariose e por outras podridões.
Essa técnica pode ser uma atividade altamente rentável, permitindo a oferta de mudas de qualidade e sanidade excelentes ao longo de todo o ano. É, também, auxiliar no estabelecimento de um sistema de viveiristas credenciados e fiscalizados, base para a produção e disponibilização de material de plantio de primeira qualidade.
Após o arranquio da planta, o desbaste das folhas e a eliminação do sistema radicular e da parte apical, o caule é cortado em pedaços longitudinais ou em discos (por guilhotina, facão ou serra circular motorizada), descartando-se rigorosamente, todos os pedaços com sintomas internos ou externos de fusariose. Depois de seccionados, mas ainda no mesmo dia, os pedaços são submetidos a tratamento fungicida-inseticida por imersão. Esse método é fundamental para a produção de mudas sadias - livres sobretudo da fusariose - destinadas a plantios em novas áreas e/ou regiões produtoras. Informações mais detalhadas sobre esta técnica podem ser encontradas em publicações da Embrapa Mandioca e Fruticultura.
 
Produção de mudas em laboratório
Para aumentar e acelerar a taxa de multiplicação, e ao mesmo tempo, diminuir o potencial ou até mesmo evitar a disseminação de pragas e patógenos por meio de mudas convencionais, técnicas de cultura de tecidos tem sido empregadas para a propagação in vitro do abacaxizeiro. Em laboratório, num espaço físico reduzido e sob condições de temperatura e luminosidade controladas, pode-se produzir rapidamente grandes quantidades de mudas do abacaxizeiro, geneticamente uniformes e de excelente qualidade fitossanitária, sejam de cultivares recomendadas ou de novos híbridos gerados.
No entanto, apesar dessas vantagens, dois aspectos devem ser considerados com respeito à produção das mudas: o custo elevado e o surgimento de variações somaclonais. Efetivamente, o alto custo de produção ainda não permite que uma grande parte dos agricultores tenha acesso às mudas produzidas in vitro. O preço de uma muda é aproximadamente R$ 0,40, que representa quase o valor de venda de um fruto por parte do agricultor. Quanto às variações somaclonais, ou seja, o surgimento de características indesejáveis que propiciam a formação de plantas anormais do abacaxizeiro, a mais freqüente é a presença de espinhos nas extremidades das folhas de variedades inermes. Entretanto, outras variações já foram encontradas, referentes à forma, à coloração e à arquitetura e à densidade das folhas, à altura das plantas e, ao peso e à coloração dos frutos. A freqüência e a distribuição dessas variações somaclonais parecem estar relacionadas com a variedade, a fonte de explante, o número de subcultivos e as quantidades de reguladores de crescimento no meio de cultura.
Empregando-se a metodologia adequada e a depender de variedade, podem-se obter, num período de 18 meses, a partir de uma planta, aproximadamente, 50.000 mudas, enquanto seriam necessários 7 anos e 6 meses para conseguir cerca de 32.000 plantas, partindo-se também de uma planta que produza em média 8 mudas, mediante a aplicação do método de propagação vegetativa tradicional.