VARIEDADES DE ABACAXI E SUAS CARACTERÍSTICAS

    O abacaxi (Ananas comosus (L.) Merrill) é uma espécie tropical de grande interesse econômico para o Brasil, possuindo como entraves para o seu desenvolvimento, as altas infestações de fusariose e ataques de cochonilhas, que oneram os custos de produção e depreciam a qualidade dos frutos.
    Todas as variedades de abacaxi de interesse da fruticultura pertencem à espécie Ananas comosus (L.) Merril. Mais recentemente, alguns clones de Ananas lucidus, Ananas ananassoides e Ananas bracteatus estão sendo cultivados para produção de fibra ou com fins ornamentais.
    Na escolha de uma variedade de abacaxi, deve-se considerar a adaptação ao local de plantio às exigências do mercado, a disponibilidade e a qualidade da muda.
 
Características Varietais
As principais características desejadas em uma variedade de abacaxi são: crescimento rápido; folhas curtas, largas e sem espinhos; produção precoce de rebentão localizado na base da planta próxima ao solo; produção de filhotes situados a mais de dois centímetros da base do fruto; fruto de casca de cor amarelo-alaranjada, olhos planos, polpa amarela, firme mas no fibrosa, teor de açúcar elevado, acidez moderada; coroa média a pequena. Associadas a essas características, procuram-se ainda variedades que proporcionem altos rendimentos e que sejam resistentes e/ou tolerantes às principais pragas e doenças que ocorrem nos locais de plantio.
É difícil encontrar uma variedade de abacaxi que reúna todas essas características. Assim, recomenda-se a escolha de variedades para usos específicos, considerando-se o destino da produção e a adaptação aos locais de plantio. A diversificação de variedades é importante para a sustentabilidade da cultura.
 
Classificação em Grupos
As variedades de abacaxi mais conhecidas no mundo foram classificadas em cinco grupos distintos: Cayenne, Spanish, Queen, Pernambuco e Perolera ( Mordilona), de acordo com um conjunto de caracteres comuns, relativos ao porte da planta, forma do fruto e características morfológicas das folhas. Essa chave de classificação, utilizada por diversos autores por razões práticas, apresenta limitações do ponto de vista genético. A noção de grupo não é consistente e não leva em consideração diversas variedades de interesse local, que não se enquadram bem em nenhum desses grupos. Dessa forma, seria mais conveniente a utilização da terminologia clássica usada em fruteiras de propagação vegetativa, formada pelo nome da variedade acompanhado do nome ou código do clone, como por exemplo: Cayenne Champaka, Queen Gregor, Pérola Jupi.
 
Principais Variedades
 
A produção comercial de abacaxi é baseada nas variedades Smooth Cayenne, Pérola, Queen, Singapore Spanish, Española Roja e Perolera. Contudo, estima-se que cerca de 70% da produção mundial de abacaxi provém de Smoth Cayenne. No Brasil e em outros países da América Latina, ocorrem diversas variedades locais e populações silvestres de abacaxi pertencentes ao gênero Ananás. Alguns desses materiais poderiam ser recomendados diretamente como variedades ou utilizados em programas de melhoramentos genético, uma vez caracterizados e avaliados adequadamente.
O predomínio do plantio de Smooth Cayenne, nos principais países produtores do mundo; o uso de poucas variedades para plantios comerciais e a substituição de variedades locais por Smooth Cayenne vêm provocando o desaparecimento de variedades de interesse local ou regional.
 
Smooth Cayenne
Caracterizam-se por porte semi-ereto, folhas com espinhos somente nas extremidades apiciais e pedúnculo curto. Frutos em forma cilíndrica, casca alaranjada, Poupa de cor amarelo-pálida, com teor de açucares e acidez elevados. Frutos adequados à industrialização e a exportação. São altamente susceptíveis à cochonilha e susceptíveis a fusariose.
Conhecida vulgarmente como abacaxi havaiano, é a variedade mais plantada no mundo, tanto em termos de área, quanto em faixa de latitude, sendo considerada, atualmente, a rainha das variedades de abacaxi, porque possui muitas características favoráveis. É uma planta robusta, de porte semi-ereto, cujas folhas não apresentam espinhos, a não ser alguns encontrados na extremidade apical do bordo da folha. O fruto é atraente, ligeiramente cilíndrico, pesa de 1,5 kg a 2,5 kg, apresentando casca de cor amarelo-alaranjada quando maduro, polpa amarela, rico em açúcares (13ºBrix a 19ºBrix) e de acidez maior do que as outras variedades. Essas características a tornam adequada para a industrialização e a exportação como fruta fresca. A coroa é relativamente pequena e a planta produz poucas mudas do tipo filhote. Em condições de clima úmido e quente, produz fruto frágil para transportar e processamento industrial. É bastante suscetível à murcha associada à cochonilha Dysmicoccus brevipes e à fusariose Fusarium subglutinans.Foi introduzida no Brasil, em São Paulo, na década de trinta e, posteriormente, difundida para outros estados, como Paraíba, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Bahia, onde a partir de 1960 também assumiu crescente importância econômica.
 
Singapore Spanish
É a segunda variedade em importância para a industrialização, sendo amplamente cultivada na Malásia, porque é adaptada aos solos turfosos desse e de outros países do sul da Ásia.
A planta apresenta porte médio, com folhas verde-escuras cujo comprimento varia de 35 cm a 70 cm. A espinescência é variável, ocorrendo clones completamente sem espinhos e outros com poucos espinhos nas extremidades dos bordos das folhas. O fruto é pequeno, pesado de 1,0 kg a 1,5 kg, cilíndrico, com baixo teor de açúcar (10ºBrix - 12ºBrix) e baixa acidez.
A planta é vigorosa, com produção regular de mudas dos tipos filhote e rebentão. É freqüente a ocorrência de coroa múltipla. Apresenta alguma resistência a pragas e doenças.
Queen
Variedade amplamente cultivada na África do Sul e na Austrália. A planta é pequena, com 60 cm a 80 cm de altura, vigorosa, com folhas prateadas, pequenas e com ocorrência de espinhos densos. Produz grande número de rebentões, porém a quantidade de filhotes é variável e são pouco desenvolvidos. O fruto é pequeno (0,,5 kg a 1,0 kg) com casca amarela, olhos pequenos e proeminentes. A polpa é amarela e doce (14ºBrix a 16ºBrix), pouco ácida, de excelente sabor e longo tempo de vida pós-colheita. Essa cultivar tem potencial para ser explorada no Brasil, em razão de apresentar algumas características semelhantes à variedade Pérola.
 
Española Roja
Conhecida também como Red Spanish, sus plantas são de tamanho médio, vigorosas, com folhas verde-escuras, espinhos pequenos e curtos, podendo ser espinhosas ou parcialmente espinhosas. Fruto de tamanho meio (1,2 kg a 2,0 kg) em forma de barril, polpa branca ou amarelo-pálida, sucosa, de sabor adocicado (sólidos solúveis totais em torno de 12ºBrix) e baixa acidez, com agradável aroma. Produz normalmente poucos filhotes e rebentões.
 
Pérola
Suas plantas possuem hábito de crescimento ereto, folhas com espinhos e pedúnculo longo. Os frutos têm forma cônica, a poupa é branca, suculenta e pouca ácida. Têm boas características organolépticas, sendo os mais apreciados para o consumo in natura, porém sendo menos adequados para a indústria. Possuem certa tolerância a cochonilha e alta susceptibilidade a fusariose.
Cultivada amplamente no Brasil, é também conhecida como Pernambuco ou Branco de Pernambuco. A planta possui porte médio e crescimento ereto; é vigorosa, com folhas com cerca de 65 cm de comprimento e espinhos nos bordos. O pedúnculo do fruto é longo (em torno de 30 cm). Produz muitos filhotes (5 a 15) presos as pedúnculo, próximos da base do fruto, o qual apresenta forma cônica, casca amarelada (quando maduro), polpa branca, sucosa, com sólidos solúveis totais de 14ºBrix a 16ºBrix, pouca acidez, sendo agradável ao paladar do brasileiro. O fruto pesa de 1,0 kg a 1,5 kg, possui coroa grande e tem sido pouco utilizado para a exportação in natura e industrialização sob forma de rodelas (Figura 2). Apresenta tolerância à murcha associada à cochonilha Dysmicoccus brevipes e ésuscetível à fusariose, doença causada pelo fungo Fusarium subglutinans.
 
Perolera
Possuem folhas longas, completamente isentas de espinhos; comprimento de pedúnculo semelhante ao do Pérola, sendo mais longo que o do Cayenne. Os frutos tem formato cilíndrico, casca avermelhada quando maduros. A poupa é de coloração variando de branca a amarela. O teor de açucares e a acidez são menores em relação ao grupo Cayenne. São adaptados a altitudes elevadas e possuem resistência a fusariose.
Variedade plantada comercialmente na Colômbia e na Venezuela, adaptada a altitudes de até 1.500 m. Em estudos efetuados pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, essa cultivar comportou-se como resistente à furasiose. A planta apresenta uma altura (distância do solo à base do fruto) de 51,0 cm, pedúnculo longo com 29,2 cm de comprimento, folha de cor verde-escura e bordo inerme, evidenciando faixa prateada pouco pronunciada, produção de um a dois rebentões e oito a dez filhotes. Fruto de forma cilíndrica, com peso médio de 1,8 kg, de casca e polpa amarelas, com teor de sólidos solúveis totais ao redor de 13ºBrix, acidez titulável em torno de 10,0 meq/100 ml e alto teor de acido ascórbico - vitamina C. nessa cultivar pode ocorrer tombamento de frutos, em razão de possuir pedúnculo longo.
 
Primavera
Fruto cilíndrico, peso 1,25 kg, polpa branca, folha verde-claro sem espinhos. Apresenta resistência à fusariose e menor sensibilidade à fasciação.
 
Imperial
Embrapa lançou híbrido de abacaxi resistente à fusariose. Foi lançado no dia 15 de abril, na Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas/BA), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o abacaxi Imperial, um híbrido resultante do cruzamento de 'Perolera' com 'Smooth Cayenne', obtido pelo programa de melhoramento genético do abacaxizeiro da instituição.
Nas avaliações realizadas em distintas regiões produtoras do Brasil (Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul), o híbrido se destacou dos demais genótipos, apresentando resistência à fusariose, doença causada pelo fungo Fusarium subglutinans, que é o principal problema fitossanitário da cultura no País, gerando perdas superiores a 80% da produção.
A adoção de variedades resistentes é o método mais eficiente e econômico para o controle da doença, além de evitar pulverizações freqüentes com fungicidas. De acordo com o pesquisador Otávio Álvares de Almeida, líder da equipe técnica de abacaxi da Embrapa Mandioca e Fruticultura, o novo híbrido é "indicado para plantio em regiões adequadas à abacaxicultura, principalmente onde a fusariose é fator limitante para a produção".
Produzindo frutos com polpa amarela, elevado teor de açúcares e excelente sabor nas análises sensoriais, o Imperial ainda tem como vantagem a ausência de espinhos nas folhas. "As recomendações técnicas de cultivo de abacaxi, atualmente em uso, podem ser aplicadas a essa nova variedade", afirma o pesquisador. Os frutos obtidos podem ser destinados para o mercado de consumo in natura e para industrialização, face às suas características sensoriais e físico-químicas.
 
Outras variedades
Outras variedades são plantadas em escala reduzida para os mercados locais e regionais, especialmente nos países da América Latina. No Brasil, uma variedade denominada Jupi, que se assemelha muito com a Pérola, do qual difere apenas pelo formato cilíndrico do fruto, pode ser encontrada em plantios nos estados da Paraíba e Pernambuco. Esta variedade, atualmente, está sendo difundida no Tocantins e em Goiás.
A predominância do plantio de Pérola e Smooth Cayenne no Brasil tem ocasionado o desaparecimento do plantio de variedade como Boituva e Rondon, outrora plantadas em várias regiões do país.
Qualquer que seja a variedade plantada, o agricultor deve preocupar-se com a manutenção das suas características morfológicas e agronômicas. Apesar de o abacaxizeiro ser uma planta de propagação vegetativa, o uso contínuo do mesmo material de plantio pode proporcionar a degenerescência do clone pelo acúmulo de pragas e doenças, e o surgimento de plantas com características diferentes do padrão da variedade. Por essa razão, o agricultor deve selecionar suas mudas antes de instalar novos plantios, colhendo somente medas oriundas de plantas vigorosas, com as mesmas características da variedade, e eliminar aquelas provenientes de plantas que apresentam baixo vigor, com anomalias, pragas e doenças. Na variedade Smooth Cayenne, é comum o aparecimento de plantas com folhas totalmente espinhosas e de frutos com coroa fasciada e, em Pérola, plantas que produzem frutos sem coroa. Mudas oriundas dessas plantas devem ser eliminadas parra que a variedade mantenha seu padrão varietal.