INTRODUÇÃO 

    O Brasil é um dos maiores produtor mundial de frutas com 34 milhões de toneladas produzidas em 2,2 milhões de ha, gerando 4 milhões de empregos diretos e indiretos. Da produção mundial de abacaxi o Brasil ocupa geralmente o segundo lugar (± 1.700.000t) sendo suplantado pela Tailândia (1.990.000t).
    Segundo Baker & Collins (1939) e Camargo (1943), o abacaxizeiro é originário da região compreendida entre 15º e 30º, Latitude Sul, e 40º e 60º, Longitude Oeste, na qual se incluem as zonas central e sul do Brasil, o nordeste da Argentina e o Paraguai. Já para Johnson (1935), o Brasil é o país de sua origem; o abacaxi silvestre brasileiro Ananas microstachys Linkl., que segundo Smith (1939) é sinônimo de A. ananassoides, parece um ancestral bastante primitivo. Bertoni, citado por Johnson (1935), relata que formas mais primitivas de abacaxi ocorrem no Paraguai, terra de origem dos índios Guaranis, que devem ter difundido essa planta e seu nome nas sucessivas incursões que fizeram no Brasil, Guianas, Venezuela, Colômbia, Panamá e Antilhas.
    O abacaxizeiro foi encontrado por Cristóvão Colombo na Ilha de Guadalupe, em 1493, e depois em outras ilhas da Índias Ocidentais (Johnson, 1935; Collins, 1960).         Anos mais tarde foi levado para a Europa, onde despertou interesse e se tornou bastante apreciado.
    O abacaxi pertence a espécie Ananas comosus L.da família Bromeliaceae (46 gêneros e 1700 espécies). O gênero Ananas é o mais importante da família Bromeliaceae pois nele estão incluídas as espécies de Ananas comosus (L.) Merril e outras usadas para produção de fibras ou para ornamentação. Possui somente cinco espécies selvagens até então conhecidas no meio científico: A. erectifolius, A. bracteatus, A. fritzmuellerii, A. ananassóide, A. parguazensis. Todas estas espécies são auto-compatíveis e intercruzam-se facilmente produzindo milhares de sementes na periferia da polpa dos frutos. A. comosus, pode ser facilmente cruzada com A. bracteatus, A. ananassoides e A. erectifolius, sendo os híbridos completamente férteis. No caso do cruzamento A. comosus e Pseudananas, a maioria das plantas F1 mostra-se tetraplóide.
    Enquanto as espécies A. bracteatus e A. fritzmuelleri produzem frutos comestíveis com bastante polpa (com sementes), as espécies A. ananassoides e A. erectifolius apresentam frutos quase secos na maturidade, com pouca polpa. Já a espécie comercial tem algumas particularidades que a torna muito diferenciada das demais espécies citadas. Trata-se de única espécie auto-incompatível (sistema gametofítico) e os frutos são originados por partenocarpia. Todas as espécies são diplóides com 2n=2x=50, com exceção do cultivar Cabezona que é triplóide. O gênero mais afim do Ananas é o Pseudananas, tetraplóide, com frutos sem a coroa terminal. Como existe intercruzamento entre as espécies selvagens (incluindo Pseudananas), pode-se praticar a introgressão de genes de interesse no melhoramento genético do abacaxizeiro. Por exemplo, alguns caracteres de interesse observados nas espécies selvagens: A. ananassoides (sabor, tolerância ao frio, umidade e resistência a doenças); A. bracteatus (resistência a doenças) e A. erectifolius (qualidade de fibra). Todavia, estas espécies selvagens são muito pouco exploradas, provavelmente pela ampla variabilidade genética liberada em hibridações dentro da própria espécie comercial.
   Deve-se mencionar, também, a existência de poucos profissionais que se dedicam ao melhoramento do abacaxi no mundo tropical e subtropical, apesar de seu elevado valor econômico. Deve-se ressaltar que esta espécie tem requisitos muito importantes que torna o melhoramento genético relativamente simples de ser executado. Senão, vejamos, como já mencionado, a auto-incompatibilidade evita a necessidade de emasculação das flores e de acordo com as combinações dos genótipos parentais pode-se ter reduzido número de sementes (dezenas) até milhares delas. Cada inflorescência (na verdade o fruto do abacaxi é uma infrutescência - sincarpo), produz em média 200 flores que se abrem pela manhã progressivamente (em espiral) durando, aproximadamente, 20 dias (± dez por dia). É uma espécie altamente heterozigota e, agronomicamente, é propagada vegetativamente através de seus vários tipos de perfilhos (base da planta ao nível do solo: rebentão, base do escapo ou haste floral: filhote-rebentão, base do fruto junto com a haste floral: filhote e no ápice do fruto: coroa). O número de mudas produzidas num ciclo depende do cultivar mas, em média, situa-se ao redor de dez. Há casos onde a inflorescência sofre algum tipo de dano e as mudas proliferam muito mais, principalmente os filhotes.    
   Resumindo, então, a heterozigozidade, a auto-incompatibilidade, a partenocarpia, a propagação vegetativa para implantação das lavouras, a compatibilidade entre combinações de genótipos dentro da espécie comercial e entre as espécies selvagens, aliado ao fato do abacaxi ser de muito fácil propagação in vitro, bem como, de permitir certo controle artificial do florescimento, configuram esta espécie, na minha opinião, como o "sonho do melhorista de plantas".
    Apesar de todas estas virtudes mencionadas é um paradoxo saber que, em todo o mundo, o cultivar Smooth cayenne (originalmente trazido para a França das Guianas por Perrotet em 1840) é responsável por 70% da produção mundial desta importante fruta. Este cultivar (também conhecido como Havaí ou Bauru) é extremamente suscetível ao fungo Fusarium subglutinans que é o principal problema no Brasil, tornando a cultura nômade e, não raro, com uma produção por ciclo. Percebe-se, portanto, a extrema vulnerabilidade genética desta atividade agrícola. Observa-se ainda, que os demais cultivares conhecidos e plantados são, ainda poucos, a saber: "Singapore", "Spanish" "Espanõla Roja", "Natal Queen", "Pérola" (principal cultivar próprio para mêsa no Brasil, também muito suscetível à fusariose), "Perolera", e "Japi" (seleção dentro de "Pérola para frutos mais cilíndricos). Muitas seleções do "Smooth cayenne" são encontradas em várias partes do mundo e decorrem da seleção massal em campo pelas mutações naturais. Pode-se dizer,portanto, que "Smooth cayennne" passou a representar um grupo com diversas seleções.
Sabe-se que a coloração da casca e da polpa, sabor (baixo teor de sólidos solúveis e elevada acidez), tamanho muito grande da coroa e a ocorrência de doenças e pragas também são fatores limitantes à exportação de abacaxi (CACEX, 1988). Atualmente, os principais cultivares plantados no Brasil e exportados são o "Pérola" e o "Smooth Cayenne". O primeiro intensivamente cultivado na Região Nordeste e nos Estados de Tocantins e Minas Gerais, tendo conseguido boa penetração nos mercados da Argentina e da Alemanha. Entretanto, obteve resultados insatisfatórios nos demais países europeus e nos Estados Unidos, cujos mercados são considerados como os mais importantes para esta fruta. Problemas como o peso excessivo, formato irregular, coloração de casca não atraente, baixo teor de suco e sabor ácido de polpa foram considerados como obstáculos à sua entrada nestes países. O segundo, por ser o principal cultivar plantado no mundo, é muito mais conhecido pelos importadores e consumidores europeus e americanos (BLEINROTH, 1996). Mesmo assim, quando cultivado em condições brasileiras, revela frutos com colorações inadequadas de casca e de polpa, com coroas grandes, deterioração rápida e alta susceptibilidade à fusariose (CACEX, 1988).
    Atualmente, vem sendo comercializado nos EUA, uma provável seleção do Smooth cayenne, conhecido como Delmond Gold (casca bem amarelada quando maduro) com muita aceitação pelos americanos pelo seu sabor adocicado e polpa amarelo intenso, muito melhor do que o Smooth cayenne que tem polpa mais ácida. Este cultivar é produzido na Costa Rica pela Empresa americana Delmond.
    Com todas estas considerações feitas é fácil entender a estratégia que foi adotada no programa de melhoramento do IAC iniciado em 1991. As características procuradas, em termos gerais, foram: obtenção de plantas vigorosas que resultem em altos rendimentos, frutos cilíndricos, bem conformados, características organolépticas e tecnológicas adequadas, resistência e/ou tolerância às principais pragas e doenças e adaptação às condições edafo-climáticas locais. Os novos clones são, via de regra, obtidos por seleção massal de plantas mutantes naturais ou induzidos com propagação vegetativa e testes de avaliação; cruzamentos biparentais controlados e abertos, com seleção dentro de progênies (meios-irmãos e irmãos germanos); exploração de variabilidade genética gerada pela cultura in vitro de tecidos (variação somaclonal) e indução de poliploidias (o cultivar Cabezona é triplóide);
OBS. ressalte-se a importância das técnicas de micropropagação in vitro, em cada caso acima, onde requer a multiplicação em grandes quantidades de mudas para os ensaios de avaliação dos novos clones.
    Já foram identificados os seguintes comportamentos dos acessos quanto a à reação ao fungo da fusariose:
com moderada resistência à fusariose: cultivares "Perolera" e "Primavera" e clones Turi Verde, Codazzi, San Ramon, Amarelo-de-Uaupés e Guiana (tolerância?).
com elevada resistência à fusariose: clones Roxo-de-Tefé , Rondon, Tapiracanga, Manzana, Manauara Inerme, Rioja, Huitota,.Alto Turi, Fernando Costa, Ver-o-peso,
    Podemos destacar a seleção de um clone com elevado teor de ácido ascórbico (>50mg de ac.asc. por 100 g de suco, valor este comparado ao de citros). Este clone possui frutos grandes (acima de 3,5 kg), com resistência a fusariose e com polpa amarela. Tem potencial para a indústria de suco refrigerado pelo alto rendimento esperado em função de seu maior tamanho. Um outro clone, também resistente a fusariose, possui baixo teor de sólidos solúveis porém, combinada com acidez nula, confere à sua polpa um sabor adocicado. Prevê-se potencial deste como uma fruta do tipo "Light". Denture os segregantes observou-se um outro clone com Brix elevadíssimo, 23o, para 16o em relação ao "Smooth cayenne". Além destes, temos outros clones que poderão substituir o "Smooth cayenne" e o "Pérola" nos mercados industrial e de mesa.
    Durante o programa de melhoramento genético o IAC recebeu um clone, originário da China, com uma característica muito peculiar de soltura dos frutilhos em função de ausência de união dos mesmos (sincarpo) quando maduros. Foi dado-lhe o nome de Gomo-de-Mel pelo seu agradável sabor adocicado e textura densa e macia de uma polpa amarelo-ouro.