FRUTEIRAS DO CERRADO

 

                                                                                                                                                           SILVA, A. P. P.

                                                                                                                                                             MELO, B.

                                                                                                                                                             FERNANDES, N.

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

1.    Introdução

2. Época de Produção de Frutos

3. Obtenção de Sementes

4.Espécies Frutíferas do Cerrado

4.1 Pequi

4.2 Mangaba

4.3 Baru

4.4 Cagaita

4.5 Araticum

4.7 Gabiroba

4.8 Jatobá

4.9 Jenipapo

4.10 Cajuzinho-do-Cerrado

5.    Referências Bibliográficas

 

 

   

1.      Introdução

 

O Brasil possui cerca de trinta por cento das espécies de plantas e de animais conhecidas no mundo, que estão distribuídas em seus diferentes ecossistemas. É o país detentor da maior diversidade biológica do planeta. A região dos cerrados, com seus 204 milhões de hectares – aproximadamente 25% do território nacional – apresenta grande diversificação faunística e florística em suas diferentes fisionomias vegetais (Avidos e Ferreira, 2003). A área core está localizada essencialmente no Planalto Central onde se encontra o divisor de águas das três grandes bacias hidrográficas do Brasil, a Amazônica, a do Paraná e a do São Francisco (Chaves, 2003).

Até meados deste século, essa região, que abrange principalmente os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Maranhão, Piauí e Distrito Federal, era considerada secundária para a produção agrícola. Naquele período, em que o mundo inteiro voltava a atenção para a Amazônia, preocupado com a devastação do que se costumava chamar de “o pulmão do mundo”, os cerrados apareciam assim como uma espécie de “patinho feio”, região de solos pobres e pouco férteis, que não despertavam muito interesse nos agricultores e nos órgãos de defesa ambiental.

A partir dos anos 60, com a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília, localizada no coração dos cerrados, com a construção de estradas e com a adoção da política de interiorização e de integração nacional, essa região foi inserida no contexto da produção de alimentos e de energia. Dessa maneira, de pequena atividade agrícola de subsistência e criação extensiva de gado, a região passou a contribuir com grande parte da produção de grãos e a abrigar expressivo número do rebanho bovino do país.

Hoje, graças ao desenvolvimento de pesquisas e tecnologias que viabilizaram a sua utilização em bases econômicas, a região dos cerrados é um dos mais importantes pólos de produção de alimentos do país, contribuindo com mais de 25% da produção nacional de grãos alimentícios, além de abrigar mais de 40% do rebanho bovino do país (Avidos e Ferreira, 2003).

Estima-se que 127 milhões de hectares são constituídos de terras aráveis potencialmente aptas para as atividades agropecuárias, sendo que 61 milhões de hectares atualmente são ocupados com pastagens, culturas anuais, perenes e florestais, e 66 milhões de hectares são apontados como a mais importante fronteira agrícola do Brasil. Devido a limitações na capacidade de uso do solo, 77 milhões de hectares são reservados estrategicamente como áreas de preservação ambiental (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Ocupação agrícola atual e potencial das terras da Região do Cerrado.

 

Ocupação

Área

Absoluta (milhões de ha)(1)

 

Relativa (%)

Terras aráveis

127

 

62

Área ocupada atualmente

61

 

30

Pastagens cultivadas

49

 

24

Culturas anuais

10

 

5

Culturas perenes e florestais

2

 

1

Áreas de preservação

77

 

38

Fronteira agrícola

66

 

32

Área total

204

 

100

(1)     Um hectare (ha) = 10.000 m2

Fonte: Embrapa..., 1999.

Todavia, o desconhecimento do potencial de uso dos recursos naturais, o desrespeito às leis de proteção ambiental, as queimadas e a intensidade de exploração agrícola têm provocado prejuízos irreparáveis ao solo, à fauna, à flora e aos recursos hídricos, comprometendo a sustentabilidade desse ecossistema e colocando muitas espécies animais e vegetais em risco de extinção, principalmente as fruteiras nativas.

O clima da região é caracterizado como tropical estacional, com chuvas da ordem 1.500 mm anuais, com distribuição concentrada na primavera e no verão, podendo ser distinguido, nitidamente, um período chuvoso e outro seco.

A duração da época seca, definida como déficit hídrico, varia de 4 a 7 meses, em 87% da superfície e se concentra durante o outono e o inverno. As temperaturas médias anuais situam-se em torno de 22ºC ao Sul e 27ºC ao Norte.

As diferenças entre as temperaturas máximas e mínimas no conjunto da região oscilam entre 4º a 5ºC, diminuindo progressivamente, à medida que se aproxima da Região Amazônica (Silva et. al., 2001).

Os solos sob cerrado apresentam grande variação em suas características morfológicas e físicas. Possuem, no entanto, algumas características químicas comuns tais como: elevada acidez, toxidez de alumínio, alta deficiência de nutrientes, alta capacidade de fixação de fósforo e baixa capacidade de troca de cátions (Lopes, 1985 apud Chaves, 2003). A classe de solos mais extensiva na região é a dos latossolos que ocorre em cerca de 54% da área e está associada às menores declividades. Em terrenos mais declivosos prevalecem os cambissolos distróficos (Haridasan, 1993 apud Chaves, 2003). O conteúdo de argila varia de menos de 5% a mais de 90% (Eiten, 1993 apud Chaves, 2003). O relevo plano e suavemente ondulado predomina em 70% da superfície. As boas condições de drenagem – em 89% dos solos da região – favorecem o uso de mecanização agrícola, permitindo o cultivo em grandes áreas (Adamoli et al., 1986 apud Silva et al., 2001).

Fisionomicamente o cerrado se caracteriza pela existência de um extrato herbáceo formado basicamente por gramíneas e um extrato arbóreo/arbustivo de caráter lenhoso. A predominância de um ou outro extrato caracteriza as diferentes formações do cerrado desde o campo limpo, onde predomina o extrato herbáceo, até o cerrado, em que predomina o extrato arbóreo. Estas diferentes formações se alternam dentro da região, na dependência, principalmente, da fertilidade do solo, declividade e presença ou ausência de concreções. A formação mais comum é o chamado cerrado stricto sensu, uma formação do tipo savana, onde convivem gramíneas com espécies lenhosos. Esta formação é a mais rica em espécies nativas frutíferas com interesse para aproveitamento alimentar. Estimativas da biodiversidade vegetal do cerrado, como um todo, apontam para um número de espécies vasculares de 5.000 a 7.000 espécies.

Com esta enorme biodiversidade criou-se, na região do cerrado, uma tradição de usos, em diferentes formas, dos recursos vegetais. Destacam-se pela importância na região, as espécies alimentícias, medicinais, madeireiras, tintoriais, ornamentais, além de outros usos. Das espécies com potencial de utilização agrícola, na região do cerrado, destacam-se as frutíferas. São algumas dezenas de espécies de diferentes famílias que produzem frutos comestíveis, com formas variadas, cores atrativas e sabor característico. Estes frutos são consumidos em diferentes formas pelas populações locais e constituem, ainda, uma importante fonte de alimentos para animais silvestres (pássaros, roedores, tatus, canídeos, etc.) e mesmo para o gado. Os animais silvestres funcionam como dispersores naturais de sementes, podendo-se admitir que o caráter atrativo e alimentício dos frutos resulta de um processo de co-evolução entre plantas e animais, por um longo período de tempo (Chaves, 2003).

As fruteiras nativas ocupam lugar de destaque no ecossistema do cerrado e seus frutos já são comercializados em feiras e com grande aceitação popular. Esses frutos apresentam sabores sui generis e elevados teores de açúcares, proteínas, vitaminas e sais minerais e podem ser consumidos in natura ou na forma de sucos, licores, sorvetes, geléias etc. Hoje, existem mais de 58 espécies de frutas nativas dos cerrados conhecidas e utilizadas pela população (Avidos e Ferreira, 2003).

Os frutos nativos do Cerrado – base de sustentação da vida silvestre e fonte de alimento para as populações rurais – possuem enorme valor nutritivo. Cem gramas de sementes de Baru fornecem 617 calorias e 26% de proteína. Em 100 g de polpa de Pequi, encontramos 20 mil microgramas de vitamina A e 100 g de polpa de Buriti contêm 158 mg de cálcio (Silva et al., 1994 apud Silva et al., 2001).

O consumo das frutas nativas dos cerrados, há milênios consagrado pelos índios, foi de suma importância para a sobrevivência dos primeiros desbravadores e colonizadores da região. Através da adaptação e do desenvolvimento de técnicas de beneficiamento dessas frutas, o homem elaborou verdadeiros tesouros culinários regionais, tais como licores, doces, geléias, mingaus, bolos, sucos, sorvetes e aperitivos. O interesse por essas frutas tem atingido diversos segmentos da sociedade, entre os quais destacam-se agricultores, industriais, donas-de-casa, comerciantes, instituições de pesquisa e assistência técnica, cooperativas, universidades, órgãos de saúde e de alimentação, entre outros.

O interesse industrial pelas frutas nativas dos cerrados foi intensificado após os anos 40. A mangaba, por exemplo, foi intensivamente explorada durante a Segunda Guerra Mundial, para exploração de látex. O babaçu e a macaúba foram bastante estudados na década de 70, em decorrência da crise de petróleo, e mostraram grandes possibilidades para utilização em motores de combustão, em substituição ao óleo diesel. O pequi já foi industrializado, sendo o seu óleo enlatado e comercializado. A polpa e o óleo da macaúba são utilizados na fabricação de sabão de coco. O palmito da gariroba, de sabor amargo, começou a ser comercializado em conserva recentemente, à semelhança do palmito doce. Os sorvetes de cagaita, araticum, pequi e mangaba continuam fazendo sucesso nas sorveterias do Distrito Federal e de Belo Horizonte (Avidos e Ferreira, 2003). Em 1975, o IBGE registrou a produção de 33 toneladas de resina de Jatobá e 2.199 toneladas de amêndoas de Macaúba; em 1991, registrou 992 toneladas de fibra de Buriti e 2.201 toneladas de Pequi para a extração de óleo. A composição química e o valor energético de algumas frutas nativas do Cerrado são apresentados nas Tabelas 2 e 3 (Silva, et al., 2001).

 

Tabela 2 –    Composição química e valor energético de algumas frutas nativas do Cerrado, obtidos de 100 g de polpa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vitaminas

 

 

Glicídios

Proteínas

Lipídios

Ca

P

Fe

 

 

 

 

 

Frutas

Calorias

(g)

(g)

(g)

(mg)

(mg)

(mg)

A

B1

B2

C

Njacina

 

 

 

 

 

 

 

 

(mcg)

(mcg)

(mcg)

(mcg)

(mcg)

Ananas

56,5

13,50

0,40

0,10

21

10

0,40

5

80

40

61,0

0,200

Araçá

37,8

8,00

1,00

0,20

14

30

1,05

48

60

40

326,0

1,300

Araticum

52,0

10,30

0,40

1,60

52

24

2,30

---

453

100

---

2,675

Babaçu (amêndoa)

 

313,0

 

13,30

 

3,90

 

29,50

 

30

 

40

 

1,00

 

---

 

320

 

250

 

---

 

1,500

Baru (amêndoa)(1)

 

616,7

 

25,46

 

26,29

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

Buriti

114,9

2,16

2,95

10,50

158

44

5,00

6,000

30

230

20,8

0,700

Cagaita(2)

---

5,04

0,50

---

---

---

---

---

---

421

72,0

0,370

Caju

36,5

8,40

0,80

0,20

50

18

1,00

124

15

46

219,7

0,539

Caju (castanha)

 

556

 

37,92

 

17,89

 

37,00

 

24

 

580

 

1,80

 

---

 

850

 

320

 

5,0

 

2,100

Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vitaminas

 

 

Glicídios

Proteínas

Lipídios

Ca

P

Fe

 

 

 

 

 

Frutas

Calorias

(g)

(g)

(g)

(mg)

(mg)

(mg)

A

B1

B2

C

Njacina

 

 

 

 

 

 

 

 

(mcg)

(mcg)

(mcg)

(mcg)

(mcg)

Coco-Guariroba (palmito)(3)

 

 

---

 

 

---

 

 

5,56

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

 

 

---

Fruto-de-Tatu(4)

---

81,84

11,80

---

0,04

0,19

---

---

---

---

---

---

Gabiroba

64,0

13,90

1,60

1,00

38

30

3,20

30

40

40

33,0

0,500

Gravata

51,0

13,50

0,60

0,10

18

16

2,60

30

40

40

50,0

0,500

Ingá

97,7

21,60

2,62

0,10

28

13

0,80

47

148

95

19,6

1,121

Jatobá

115,0

29,40

1,00

0,70

31

24

0,80

30

40

40

31,1

0,500

Jenipapo

81,7

18,27

1,18

0,44

33

29

3,40

30

24

275

6,8

0,560

Lobeira(5)

345,0

85,99

9,48

---

96,2

105

30

---

---

---

---

---

Macaúba (castanha)

 

243,0

 

27,90

 

4,40

 

27,90

 

199

 

57

 

0,20

 

23

 

140

 

90

 

28,0

 

1,000

Mama-Cadela(6)

---

5,04

1,99

---

---

---

---

---

---

---

---

---

Mangaba

47,5

10,50

0,70

0,30

41

18

2,80

30

40

40

33,0

0,500

Murici

60,5

11,70

1,37

1,16

19

18

2,04

7

20

40

84,0

0,400

Pêra-do-Cerrado(7)

 

---

 

---

 

4,87

 

---

 

0,08

 

0,04

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

 

---

Pequi (amêndoa)

 

89,0

 

21,60

 

1,20

 

0,90

 

14

 

10

 

1,20

---

 

---

 

---

 

---

 

---

Pequi (endocarpo)(8)

---

6,76

1,02

10,00

0,049

0,208

1,39

20.000

30

463

12,0

0,387

Pitanga

46,7

6,40

1,02

1,90

9

11

0,20

210

30

60

14,0

0,300

Pitomba

---

---

---

---

---

---

---

30

40

40

54,0

0,500

Fonte: Frango, 1992. Exceto: 1, 2 e 6 – Almeida et al., 1997; 3 – Almeida e Silva, 1994; 4 e 5 – Embrapa, 1997. --- Dados Desconhecidos

 

 

Tabela 3 –    Composição em ácidos graxos (%) do óleo de algumas frutas nativas do Cerrado.

 

Ácidos graxos

Macaúba

Baru(1)

Babaçu

Buriti

Pequi(2)

Jenipapo

Casca

Polpa

Amêndoa

Amêndoa

Amêndoa

Polpa

Casca

Polpa

Amêndoa

Polpa

Amêndoa

Caprílico

---

---

6,2

---

6,8

---

---

---

---

---

---

Cáprico

---

---

5,3

---

6,3

---

---

---

---

2,3

---

Láurico

---

---

43,6

---

41,0

---

---

---

---

2,3

---

Mirístico

---

---

8,5

---

16,2

---

---

---

---

5,3

---

Palmítico

24,6

18,7

5,3

5,7

9,4

16,3

34,0

34,4

32,0

37,2

10,3

Palmitoléico

6,2

4,0

---

---

---

0,4

1,6

2,1

1,3

---

---

Esteárico

5,1

2,8

2,4

5,5

3,4

1,3

3,7

1,8

2,1

5,4

9,7

Oléico

51,5

53,4

25,5

14,2

14,2

79,2

54,3

57,4

56,3

25,7

19,5

Linoléico

11,3

1737

3,3

32,4

2,5

1,4

4,2

2,8

7,2

---

60,5

Linolênico

1,3

1,5

---

2,2

---

1,3

1,8

1,0

0,3

---

---

Saturados

29,7

21,5

71,2

---

83,3

17,7

37,7

36,2

34,1

---

---

Insaturados

70,3

78,5

28,8

---

16,7

82,3

62,3

63,8

65,9

---

---

 

Fonte: Brasil, 1985. Exceto (1) Embrapa, 1987; (2) Figueiredo et al., 1986. --- Dados Desconhecidos

 

Atualmente, é possível encontrar grande quantidade de frutas nativas do cerrado sendo comercializadas em feiras da região e nas margens das rodovias a preços competitivos e alcançando grande aceitação popular. Observa-se, hoje, a existência de mercado potencial e emergente para as frutas nativas do cerrado, a ser melhor explorado pelos agricultores, pois todo o aproveitamento desses frutos tem sido feito de forma extrativista e predatória.

Apesar da existência de leis de proteção à fauna, à flora e ao uso do solo e água, elas são ignoradas pela maioria dos agricultores, que utilizam esses recursos naturais erroneamente, na expectativa de maximizarem seus lucros. Neste cenário, o ecossistema cerrado tem sido agredido e depredado pela ação do fogo e dos tratores, colocando em risco de extinção várias espécies de plantas, entre elas algumas fruteiras nativas, antes mesmo de serem classificadas pelos pesquisadores (Avidos e Ferreira, 2003).

Devido ao processo acelerado de ocupação agrícola do Cerrado e à exploração extrativista e predatória, tem-se observado quedas anuais significativas nas safras desses produtos, tornando imprescindível que seu cultivo seja iniciado.

Segundo Abramovay (2000), é possível explorar de maneira sustentável os recursos e o verdadeiro banco de germoplasma hoje existentes nos Cerrados. As fruteiras nativas dos Cerrados, tais como araticum, jatobá, piqui, mangaba, cagaita, buriti, constituem fontes importantes de fibras, proteínas, vitaminas, minerais, ácidos saturados e insaturados presentes em polpas e sementes; possuem enraizamento profundo o que permite um aproveitamento mais eficiente da água e dos minerais do solo comparativamente às lavouras de grãos. Ainda segundo Abramovay (1999), não dependem de sistemas de manejo apoiados em revolvimento intensivo do solo; oferecem proteção ao solo contra impactos de gotas de chuva e contra formas aceleradas de erosão hídrica e eólica; permitem consorciamento com outras culturas favorecendo o melhor aproveitamento da terra; podem ser explotadas sem forte alteração da biodiversidade.

Estes são apenas alguns exemplos de recursos que hoje a pesquisa agropecuária já estuda e cuja exploração sustentável pode propiciar retorno tanto mais interessante que não se restringem aos mercados convencionais e já existentes.

Uma boa solução para conter a devastação da região do cerrado, como explica o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Dijalma Barbosa da Silva, é utilizar as áreas já abertas e abandonadas, para a produção, pois assim não seria preciso devastar novas áreas. Além disso, a utilização dessas áreas reduziria os custos para os produtores, visto que já estão preparados e limpas para o plantio, exigindo apenas investimentos em corretivos, adubações e práticas conservacionistas.

Dentre as possibilidades atuais de utilização das fruteiras do cerrado, destacam-se: o plantio em áreas de proteção ambiental; o enriquecimento da flora das áreas mais pobres; a recuperação de áreas desmatadas ou degradadas; a formação de pomares domésticos e comerciais; e o plantio em áreas de reflorestamento, parques e jardins, e em áreas acidentadas. Nesse sentido, muitos agricultores e chacareiros já estão implantando pomares de frutas nativas dos cerrados e os viveiristas estão intensificando a produção de mudas  (Avidos e Ferreira, 2003).

Outro tipo de ambiente que pode ser utilizado de forma complementar para fins de conservação de recursos genéticos são as faixas de domínio de rodovias. Principalmente nas chapadas, áreas contínuas e praticamente intocadas, ocorrem em grandes extensões nas margens de rodovias, amostrando faixas de formações originais de áreas já totalmente ocupadas por atividades agropecuárias. Pelo menos para as espécies com parte da variabilidade genética das populações originais, além de servir para conectar fragmentos. Nota-se, no entanto, que estas faixas vêm sendo paulatinamente ocupadas por lavouras, de forma irregular, o que poderia ser evitado com ações educativas e de fiscalização (Chaves, 2003).

Segundo Abramovay (1999), o aproveitamento econômico destes recursos tão variados é bem mais complexo que a ligação ao mercado por meio de produtos consagrados como a soja, o milho e os suínos. Ainda segundo este autor, o importante é que esta fantástica diversidade de espécies e usos retrata o desafio central que consiste na criação de mercados capazes de representar uma agregação de valor – em virtude da especificidade do produto – muito maior que na produção de commodities.

Há grande potencial para a exportação dessas frutas, já que possuem um sabor sui generis e não são encontradas em outros países. Hoje, o licor de pequi já é exportado para o Japão e a amêndoa do baru é demandada pela Alemanha; mas existem ainda muitas possibilidades de exportação de outras espécies nativas.

É muito importante investir no trabalho de domesticação das fruteiras nativas dos cerrados para que possam ser cultivadas em lavouras comerciais. Dessa forma, evita-se o extrativismo predatório, ao mesmo tempo em que se conservam as espécies em seu habitat natural (Avidos e Ferreira, 2003).

As informações baseadas em pesquisa científica, acerca das espécies frutíferas do cerrado são, ainda, escassas.

Das observações e resultados de pesquisa até agora obtidos pode-se considerar que algumas das espécies enfocadas apresentam uma boa possibilidade de utilização em plantios comerciais, em curto prazo. Merecem destaque, neste aspecto, o araticum e a mangaba. Ambas as espécies são relativamente precoces, com quatro a seis anos para início de produção, a partir do plantio de mudas. Para o araticum, os principais pontos críticos a serem contornados são o baixo poder germinativo e dormência das sementes, o que dificulta a formação de mudas uniformes, além do ataque de insetos aos frutos danificando-os. Já a mangabeira não apresenta problemas de formação de mudas, desde que as sementes sejam plantadas imediatamente após serem retiradas dos frutos (sementes recalcitrantes). Na fase de produção, o déficit hídrico na fase anterior à frutificação, parece ser um fator limitante. Algumas espécies de alto potencial econômico, principalmente o pequizeiro, apresentam maiores problemas quanto à domesticação, devido ao longo tempo necessário para início de produção. Neste caso, a reprodução assexuada seria uma forma de promover uma maior precocidade. Mesmo com alguns resultados de pesquisa que apontam a possibilidade de enxertia na espécie, a técnica ainda não está totalmente dominada para ser empregada em larga escala, merecendo estudos com acompanhamento das mudas enxertadas, após o transplantio para o campo (Chaves, 2003).

   2.      Época de Produção de Frutos

 

A maioria dos frutos do Cerrado amadurece no início da estação chuvosa, que vai de setembro a dezembro, porém em menores quantidades há uma ocorrência de frutos praticamente o ano todo. De uma forma geral, os frutos que amadurecem no início da estação chuvosa (setembro, outubro) não apresentam dormência de sementes, já que estas encontram condições propícias para germinação e estabelecimento das plântulas, antes do período de estiagem. Como exemplo de espécies que adotaram este tipo de estratégia, podem ser citados a cagaita (Eugenia dysenterica DC) e o caju arbóreo (Anacardium othonianum Rizz) que muita vezes frutificam antes mesmo das primeiras chuvas da estação. Já as espécies que frutificam mais para o final da estação chuvosa apresentam, em geral, sementes com diferentes graus de dormência, o que as possibilitam atravessar a estação seca para germinar no início da estação chuvosa seguinte. O araticum (annona crassiflora Mart.) e o pequi (Cariocar brasiliense Camb.) são exemplos de espécies que apresentam sementes com dormência (Chaves, 2003).

A época de frutificação e a vegetação de ocorrência – para coleta de frutos e obtenção de sementes das principais espécies de fruteiras nativas do Cerrado – são apresentadas na Tabela 4 (Silva et al., 2001).

  Tabela 4 –    Época de frutificação e vegetação de ocorrência para a coleta de frutos e sementes das principais espécies frutíferas nativas do Cerrado.

 

Nome comum

Nome científico

Frutificação

Vegetação de ocorrência

Amora-Preta

Bubus cf brasilliensis

set. a fev.

Mata de Galeria

Ananás

Annas ananassoides

out. a mar.

Cerrado, Cerradão e Mata de Geleria

Araçá

Psidium firmum

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Araticum

Annona crassiflora

fev. a mar.

Cerrado e Cerradão

Araticum-de-Casca-Lisa

Annona coriacea

dez. a mar.

Cerrado, Cerradão, Campo Sujo e Campo Rupestre1

Araticum-Rasteiro

Annona pygmaea

dez. a mar.

Campo Sujo e Campo Limpo

Araticum-Tomentoso

Annona cf. tomentosa

dez. a mar.

Cerrado e Campo Sujo

Babaçu

Orbygnia cf. phalerata

out. a jan.

Mata Seca2

Bacupari

Salacia campestris

set. a dez.

Cerrado, Cerradão e Campo Sujo

Banha-de-Galinha

Swartzia langsdorfii

ago. a out.

Mata Seca, Mata de Galeria

Baru

Dypterix alata

set. a out.

Mata Seca, Cerradão e Cerrado

Buriti

Mauritia vinifera

out. a mar.

Mata de Galeria e Vereda

Cagaita

Eugenia dysenterica

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Cajuzinho-do-Cerrado

Spondia cf. lutea L.

dez. a fev.

Mata de Galeria

Caju-de-Árvore-do-Cerrado

Anacardium othonianum

set. a out.

Cerrado e Cerradão

Caju-Rasteiro

Anacardium pumilum

set. a out.

Campo Sujo e Campo Limpo

Cajuzinho-do-Cerrado

Anacardium humile

set. a nov.

Cerrado, Campo Sujo e Campo Limpo

Chichá

Sterculia striata

ago. a out.

Cerradão e Mata Seca

Coquinho-do-Cerrado

Syagrus flexuosa

set. a mar.

Cerrado e Cerradão

Croadinha

Mouriri elliptica

set. a out.

Cerrado e Cerradão

Curriola

Pouteria ramiflora

set. a mar.

Cerrado e Cerradão

Fruto-do-Tatu

Crhysophyllum soboliferum

nov. a jan.

Cerrado e Campo Sujo

Gabiroba

Campomanesia cambessedeana

set. a nov.

Cerrado, Cerradão e Campo Sujo

Gravatá

Bromelia balansae

out. a mar.

Cerrado e Cerradão

Guapeva

Pouteria cf. gardineriana

nov. a fev.

Cerradão, Mata Seca e Mata de Galeria

Guariroba

Syagrus oleraceae

set. a jan.

Mata Seca

Ingá-do-Cerrado

Inga laurina Willd..

nov. a jan.

Mata de Galeria, Cerradão e Mata Seca

Jaracatiá

Jacaratia hiptaphylla

jan. a mar.

Mata Seca

Jatobá-do-Cerrado

Hymenaea stigonocarpa

set. a nov.

Cerrado e Cerradão

Jatobá-da-Mata

Hymenaea stilbocarpa

set. a nov.

Cerradão, Mata Seca e Mata de Galeria

Jenipapo

Genipa ameriacana

set. a dez.

Mata Seca, Cerradão e Mata de Galeria

Jerivá

Syagrus romanzoffiana

abr. a nov.

Cerradão e Mata de Galeria

Lobeira

Solanum lycocarpum

jul. a jan.

Cerrado, Cerradão e Campo Sujo

Macaúba

Acrocomia aculeata

mar. a jun.

Mata Seca e Cerradão

Mama-Cadela

Brosimum gaudichaudii

set. a nov.

Cerrado e Cerradão

Mangaba3

Hancornia spp.

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Maracujá-de-Cobra4

Passiflora coccinea

set. a nov.

Mata de Galeria e Cerradão

Maracujá-do-Cerrado

Passiflora cincinnata

out. a mar.

Cerrado e Cerradão

Maracujá-Doce

Passiflora alata

fev. a abr.

Mata de Galeria e Mata Seca

Maracujá-Nativo5

Passiflora eichleriana

out. a mar.

Mata de Galeria, Cerradão e Mata Seca

Maracujá-Roxo

Passiflora edulis

fev. a ago.

Mata de Galeria

Marmelada-de-Bezerro

Alibertia edulis

set. a nov.

Cerrado e Cerradão

Continua

Nome comum

Nome científico

Frutificação

Vegetação de ocorrência

Marmelada-de-Cachorro

Alibertia sessillis

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Marmelada-de-Pinto

Alibertia elliptica

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Melancia-do-Cerrado

Melancium campestre

mai. a jul.

Cerrado, Campo Sujo e Campo Limpo

Murici

Byrsonima verbascifolia

nov. a mar.

Cerrado e Cerradão

Palmito-da-Mata

Euterpe adulis

abr. a out.

Mata de Galeria

Pequi

Caryocar brasilliense

out. a mar.

Cerrado, Cerradão e Mata Seca

Pequi-Anão6

Caryocar brasilliense

subsp. Intermedium

fev. a abr.

Cerrado, Campo Limpo, Campo Sujo e Campo Rupestre

Pêra-do-Cerrado

Eugenia klostzchiana

out. a dez.

Cerrado e Cerradão

Perinha

Eugenia lutescens

set. a nov.

Cerrado, Cerradão e Campo Sujo

Pimenta-de-Macaco

Xilopia aromatica

set. a jan.

Cerrado e Cerradão

Pitanga-Vermelha

Eugenia calycina

set. a dez.

Cerrado e Campo Sujo

Pitomba-do-Cerrado

Talisia esculenta

out. a jan.

Mata Seca e Cerradão

Puçá

Mouriri pusa

set. a out.

Cerrado e Cerradão

Saputá

Salacia elliptica

out. a dez.

Mata de Galeria

Tucum-do-Cerrado

Bactris spp.

jan. a mar.

Mata de Galeria

Uva-Nativa-do-Cerrado

Vitis spp.

jan. a mar.

Mata Seca e Calcária

(1)  Campo Rupestre: tipo fisionômico predominantemente herbáceo e arbustivo, com presença eventual de pequenas árvores. Ocorrem em solos rasos com afloramento de rocha, em altitudes superiores a 900 m.

(2)   Mata Seca: formações florestais caracterizadas por diversos níveis de caducifolia durante a estação seca.

(3)   Ocorrência predominante em áreas de solos pedregosos, morros e serras.

(4)   Ocorrência restrita aos vales dos rios Araguaia e Paraguai.

(5)   Ocorrência restrita aos vales do Médio e Baixo São Francisco.

(6)   Ocorrência restrita ao sul de Minas Gerais.

 

Foi observado, em plantio não-experimental da Embrapa Cerrados, que plantas oriundas de mudas produzidas por sementes de algumas espécies frutíferas nativas e de porte herbáceo-arbustivo, como gabiroba, pêra-do-cerrado, marmelada, caju, dentre outras, iniciaram a fase de frutificação a partir de dois anos após o plantio. Espécies arbóreas como araticum, pequi, baru, cagaita e mangaba, tiveram sua fase de frutificação iniciada 4 a 5 anos após o plantio. A Figura 01 mostra uma planta de Araticum com aproximadamente 4 anos de idade.

Devido à grande variabilidade genética encontrada nas espécies de fruteiras nativas, em condições naturais, os plantios oriundos de sementes ou propagação sexuada apresentam plantas desuniformes, com florescimento e frutificação irregulares.

A propagação vegetativa ou assexuada através de enxertia, estaquia ou cultura de tecidos permite a clonagem de plantas-matrizes de alta produtividade e boa qualidade de frutos, a padronização das plantas e a uniformidade na produção, além de antecipar o início da frutificação.

3.      Obtenção de Sementes

     Dos frutos pode-se obter polpa para consumo in natura ou industrialização e sementes.

O procedimento desde a coleta dos frutos até o armazenamento das sementes é o seguinte:

·        Os frutos podem ser coletados maduros nas plantas ou logo após caírem no chão, eliminado os frutos deteriorados e mal formados;

·        Após a coleta, extrair a polpa dos frutos. A extração da polpa de frutos carnosos e de casca mole pode ser feita amassando-se os frutos sobre uma peneira. Frutos de casca dura deverão ser quebrados e a polpa retirada com o uso de faca;

·        Após extrair a polpa, separar as sementes;

·        As sementes devem ser lavadas em água corrente e colocadas para secar à sombra, em local ventilado;

·        Selecionar as sementes (tamanho, cor e forma). Eliminar as sementes chochas, deformadas ou que apresentem sinais de ataques de pragas ou doenças.

·        As sementes para fins comerciais devem ser coletadas próximas às regiões de demanda;

·        No armazenamento, as sementes de frutos carnosos são acondicionadas em sacos plásticos e colocadas na geladeira por um período de 15 dias; após este período, o poder germinativo começa a cair. Sementes de frutos secos podem ser armazenadas em sacos de papel, em ambiente seco e ventilado, por um período de 60 dias, após o qual a percentagem de germinação começa a cair. Em algumas espécies as sementes perdem rapidamente sua viabilidade, como é o caso da Mangaba e do Ingá, devendo ser semeadas logo após a retirada dos frutos.

 

4. Espécies Frutíferas do Cerrado

 

4.1- Pequi

 

Divisão:                   Magnoliophyta (Angiospermae)

Classe:                    Magnoliopdida (Dicotiledonae)

Ordem:                   Guttiferales

Família:                   Caryocaraceae

Nome Científico:     Caryocar brasiliense Camb.

Nomes Populares:   Pequi (MG, SP); Piqui (MT); Piquiá-bravo; Amêndoa-de-espinho, Grão-pequiá; Pequiá-pedra; Pequerim; Suari; Piquiá.

Ocorrência:             Cerradão Distrófico e Mesotrófico, Cerrado Denso, Cerrado, Cerrado Ralo e Mata Seca.

Distribuição:            Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo, Tocantins.

 

Em Minas Gerais, o fruto é encontrado em maiores quantidades na região de Montes Claros, no norte do Estado (revista.fapemig.br/11/pequi). No Estado de Goiás a espécie é protegida por lei (Código Florestal do Estado de Goiás), mas vem sendo dizimada, principalmente, nas áreas de expansão agrícola.

O pequizeiro (Caryocar brasilliense Camb.) é uma árvore típica do cerrado brasileiro e, com certeza, uma das com maior valor econômico na região, ou seja, com um alto grau de aproveitamento, não só pelos seus frutos, mas pela árvore, como um todo. O fruto é chamado de pequi que, em língua indígena da região, significa “casca espinhenta”.

A família à qual pertence o pequizeiro tem dois gêneros e mais de uma dezena de variedades, que podem ser encontradas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A variedade mais comum no cerrado do Centro-Oeste pode chegar a 10m de altura e, por esta razão, é uma das maiores árvores do cerrado brasileiro, que apresenta uma vegetação predominantemente rasteira. Entretanto, é comum encontrarmos, nessa região, pequizeiros de pouco mais de 1 m de altura.

Na região Norte, entretanto, podemos encontrar variedades muito maiores, com árvores de mais de 20 m de altura e um diâmetro que pode chegar até 5 m (www.ruralnews.com.br/agricultura/frutas/pequi).

Segundo Almeida et al., (1998), a floração ocorre de agosto a novembro (chuvas) com pico em setembro, mas ocasionalmente em outras épocas após as chuvas ou roçados. A frutificação ocorre de novembro a fevereiro.

Em cerrados, normalmente roçados para facilitar a pastagem do gado, encontram-se exemplares pequenos, com 1 metro de altura, carregados de flores em épocas fora do tempo normal de floração, quando há veranicos, no período de janeiro (www.radiobras.gov.br).

A planta possui porte arbório, podendo chegar a 10 m de altura e de 6 a 8 m de diâmetro de copa, com tronco tortuoso de casca áspera e rugosa de 30 – 40 cm de diâmetro. As folhas pilosas são formadas por 3 folíolos com as bordas recortadas, longo-pecioladas e opostas (Figura 01).

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 01 – Árvore, folhas e flores

Fonte: Clube da Semente, 2003

    A árvore é hermafrodita. Inflorescêcia racemo terminal curta com10 a 30 flores. As flores são grandes e amarelas. Oliveira (1998) apud Chaves (2003), encontrou taxas de cruzamento que caracterizam a espécie como alógama. Estudos realizados com marcadores izoenzimáticos e morfológicos têm mostrado uma grande variabilidade genética dentro de sub-populações com valores bem próximos de zero para a variabilidade genética entre sub-populações (Oliveira et al., 1997; Oliveira, 1998; Trindade et al., 1998), o que é característico de populações alógamas sem restrições ao fluxo gênico. É planta semidecídua, cuja floração ocorre logo após a emissão de folhas novas. Apresenta redução parcial da folhagem durante a estação seca (Ribeiro et al., 1981 apud Almeida et al., 1998). Várias características identificam a polinização dessa espécie com a síndrome de quiropterofilia, tais como: estames com abundante quantidade de pólen pulverulento, volume médio de néctar produzido por flor (0,33 ml), concentração de açúcar no néctar (13,6%), liberação de forte cheiro pela flor, especialmente no período de antese, ao redor de 19 a 20 horas. Ocorre autopolinização, podendo cerca da metade dos botões florais desenvolver-se para frutos (Barradas, 1972 apud Almeida el. Al., 1998).

Os frutos alcançam a maturidade entre três e quatro meses após a floração. A dispersão dos frutos é realizada por dois vetores, um marsupial (Didelphis albiventris) e um corvídeo (Cyanocorax cristatellus) (Gabriel, 1986 apud Almeida et al., 1998). O fruto, do tamanho de uma pequena laranja, está maduro quando sua casca, que permanece sempre da mesma cor verde-amarelada, amolece.

Partida a casca, encontram-se, em cada fruto, uma, duas, três ou quatro amêndoas tenras envoltas por uma polpa amarela, branca ou rósea, o verdadeiro atrativo da planta. A única contra-indicação são os espinhos finos, minúsculos e penetrantes existentes bem no núcleo do caroço, sendo preciso muito cuidado ao mastigá-lo para chupar a polpa. (Figura 02) (www.bibvirt.futuro.usp.br).

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 02 – Fruto do Pequizeiro

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

 

A coleta de frutos implica a exportação de nutrientes, e para cada tonelada de fruto fresco seguem 4,3 kg de potássio, 1,8 kg de nitrogênio e 0,1 kg de fósforo (Miranda et al., 1987 apud Almeida et al., 1998).

O peso médio do fruto foi de 120 g, sendo que a casca representa 82% do fruto, o endocarpo 4,6%, a polpa 7% e a amêndoa cerca de 1% (Almeida & Silva, 1994 apud Almeida et al., 1998). O peso unitário dos frutos variou de 50 a 250 g, a casca de 20 a 117 g, a amêndoa de 2 a 4 g, com valor médio de 8,14 g de polpa (Miranda & Oliveira Filho, 1990 apud Almeida et al., 1998).

Segundo Franco (1982) apud Almeida et al., (1998), 100 g de polpa de pequi contém:

 

Vitamina A

20.000 mg

Vitamina C

12 mg

Tiamina

30 mg

Riboflavina

463 mg

Niacina

387 mg

 

Quanto aos sais minerais, a polpa do piqui (coletado no Mato Grosso) apresentou Na (20,9 mg/g), Fe (15,57 mg/g), Mn (5,69 mg/g), Zn (5,32 mg/g), Cu (4 mg/g), Mg (0,05 mg/g), P (0,06 mg/g) e K (0,18 mg/g), sendo que a amêndoa apresentou Na (2,96 mg/g), Fe (26,82 mg/g), Mn (14,37 mg/g), Zn (53,63 mg/g) e Cu (15,93 mg/g) (Hiane et al., 1992 apud Almeida et al., 1998). O valor energético, em cada 100 g é de 89 calorias (www.ruralnews.com.br).

O pequi é considerado a “carne” do Cerrado. Além das proteínas, poliglicerídeos e carboidratos necessários ao organismo, contém alto teor de pró-vitamina “A” em sua polpa (revista.fapemig.br/11/pequi).

O pequizeiro é uma planta muito versátil, no que diz respeito às suas utilidades, pois dela se aproveita praticamente tudo.

O pequi é muito apreciado nas regiões onde ocorre: o arroz, o frango e o feijão cozidos com pequi são pratos fortes da culinária regional; o licor de pequi tem fama nacional; e há, também, uma boa variedade de receitas de doces aromatizados com seu sabor (www.bibvirt.futuro.ups.br). Como medicinal o óleo da polpa tem efeito tonificante, sendo usado contra bronquites, gripes e resfriados e no controle de tumores. É comum o óleo ser misturado ao mel de abelha ou banha de capivara, em partes iguais, e a mistura resultante ser usada como expectorante. O chá das folhas é tido como regulador do fluxo menstrual. Na indústria cosmética, fabricam-se cremes para a pele tendo o piqui como componente. O potencial forrageiro foi evidenciado quando fragmentos de folha foram encontrados em fístula esofágica de bovino (Macedo et al., 1978 apud Almeida et al., 1998). Os frutos também são ingeridos pelos bovinos, mas em função do endocarpo espinhoso, podem ocorrer acidentes. As flores são importantes para alimentação de animais silvestres como: paca, veado-campeiro e mateiro, e as árvores floridas são utilizadas como pontos de espera da caça. Da casca e das folhas extraem-se corantes amarelos de ótima qualidade, empregados pelos tecelões em tinturaria caseira (Silva Filho, 1992 apud Almeida et al., 1998). A madeira é própria para xilografia, construção civil e naval, construção de esteios de curral, mourões e dormentes. Também é usada na fabricação de móveis, além de ser fonte de carvão para siderurgias. A planta é melífera e ornamental.

Cada planta adulta poderá produzir, em média, até dois mil frutos por safra. O preço do litro de caroços de pequi, com aproximadamente 17 unidades, tem sido comercializado no varejo, em feiras livres e Ceasa-DF, ao preço que varia entre R$1,50 a R$3,00. A frutificação ocorre normalmente aos cinco anos após o plantio (Avidos e Ferreira, 2003).

Segundo Moura e Rolim (2003), a forma de obtenção desses frutos é o extrativismo que envolvem catadores, principalmente de Pequi, que são famílias de baixa renda e moradores de regiões carentes. Na tarefa de catar pequi é envolvida toda a família, inclusive as crianças que, após o dia de trabalho vão para as beiras de estradas oferecer o produto da catação aos transeuntes, ou vendem a atravessadores que recolhem a produção da região e levam para comercialização nos centros consumidores, como Goiânia ou Montes Claros em Minas Gerais. Os valores pagos aos catadores são muito baixos, pouco auxiliando para a melhoria de vida daquela população, uma vez que a produção é sazonal e na entressafra essas pessoas têm que buscar outras atividades para garantir a sobrevivência.

A comercialização do fruto “in natura” é destinada ao consumo na culinária típica. Ainda pode ser destinada a pequenos fabricantes de conservas vegetais, que processam sem o conhecimento técnico necessário, colocando em risco a saúde do consumidor e juntamente a isso a credibilidade do produto a base de fruto do cerrado.

Outra forma que essas famílias utilizam para aumentar a renda com a catação do Pequi é a extração do óleo, que é feita às vezes com o fruto que foi catado e não vendido in natura. O processo utilizado para a extração é muito rudimentar e com baixa produção, produtividade e qualidade. O óleo obtido é vendido nos centros de comercialização, CEASA,e mercados municipais também a preços baixos, além da venda a atravessadores que revendem o produto com nova embalagem e a preços significativamente maiores. Há também um mercado para a indústria cosmética que exige determinadas características para o óleo que, no processo utilizado de extração não atende, e quando atende o extrativista não tem acesso direto à empresa e sim ao atravessador.

Preocupada em preservar e possibilitar a exploração comercial do pequi, a Embrapa está pesquisando seu cultivo em lavouras, utilizando técnica de irrigação e fertilidade. Os trabalhos têm resultado em pomares precoces, de produção dois anos após o plantio (www.embrapa.br).

Devido à sua origem no cerrado, o pequizeiro é melhor adaptado a regiões com pouca chuva ou pouca irrigação. Sua produção é sempre maior em período mais secos e, por esta razão, a variedade do cerrado também pode ser cultivada em algumas regiões mais secas do Nordeste. No entanto, durante o período de germinação, é necessário que façamos uma irrigação, caso não haja um volume adequado de chuvas (www.ruralnews.com.br).

Sua produção não é estável. Em anos de muita chuva, produz pouco; ao contrário, nos de seca a produção é maior. Tanto que nas regiões interioranas existe um adágio popular muito conhecido: “ano de pequi, ano de crise”. A chuva derruba as flores antes da fecundação, o que reduz a produção (www.radiobras.gov.br).

Os frutos de Pequi caem naturalmente quando estão maduros. Por isso, devem ser apanhados preferencialmente no chão. Frutos coletados diretamente na planta podem não apresentar sementes completamente desenvolvidas, reduzindo a taxa de germinação (Silva et al., 2001).

A propagação da árvore do pequi é feita com os frutos maduros, usados como semente logo que caem ao chão. A quebra da dormência, entre outras maneiras, pode ser feita com a movimentação das sementes sem casca em um recipiente durante 15 a 20 minutos, de modo a provocar pequenos choques, ou deixá-los por 24 horas em uma solução de água com ácidos específicos (www.altiplano.com.br/Pequi7).

Na produção de mudas, a maior dificuldade está na demora para a germinação, que só ocorre entre 120 e 360 dias após a semeadura. Para acelerar o processo, submetem-se os caroços a um tratamento antes de semeá-los. A Embrapa recomenda a imersão em uma solução com ácido giberélico, encontrado nas lojas de materiais agrícolas com o nome de Progib.

A proporção da solução é de 1,5 litro de água para 1 grama de ácido giberélico. Um envelope contém 10 gramas de produto, mas somente 1 grama do ácido (princípio ativo). Os caroços de pequi, obtidos à partir de frutos maduros, são colocados na solução após despolpados e secos à sombra em local ventilado. O período de imersão é de 36 horas. Com isso, reduz-se o tempo de germinação para cada de 40 dias.

No livro Árvores Brasileiras,  Lorenzi, o tratamento recomendado consiste em deixar os caroços em água por 48 horas, sendo trocada a cada 12 horas. Logo depois, os caroços são postos para germinar em canteiros ou diretamente em saquinhos individuais. O desenvolvimento das mudas é lento (globorural.globo.com).

Banhos de ácido e choques térmicos eram os recursos mais utilizados para estimular a germinação, mas essas e outras técnicas vem sendo substituídas em alguns viveiros. O pesquisador Roberto de Almeida Torres, coordenador do viveiro de mudas do CNPq/Funape/UFG, explica que processo de reprodução do pequi começa com a seleção das matrizes. São escolhidas aquelas com frutos de melhor qualidade, destacando-se a espessura da polpa, a conformação e a sanidade da árvore.

Os frutos caídos são colhidos e amontoados no chão, à sombra, até que ocorra a fermentação. Em seguida são despolpados. As primeiras e ácidas chuvas da estação induzem a semente à germinação, o que ocorre à partir dos 28 dias. Em 60 dias, 80% do material já está germinado (www.altiplano.com.br/Pequi7).

Tem-se realizado pesquisas com a formação de mudas por propagação vegetativa, através de técnicas como estaquia, enxertia, alporquia e cultura in vitro do embrião, com o intuito de reduzir o tempo inicial de produção de frutos.

O pequizeiro pode ser atacado por algumas doenças, dentre elas, Silva et al., (2001) destaca:

·      Podridão de raízes de mudas – É uma doença causada pelo fungo. Cylindrocladium clavatum, que ataca as raízes das mudas, apodrecendo-as e causando-lhes a morte ou retardando consideravelmente seu desenvolvimento. Devem-se evitar regas em excesso e sombreamento das mudas.

·      Mal-do-Cipó – Causada pelos fungos Cerotelium giacomettii e Phomopsis sp. Até o momento, é a mais grave doença do pequizeiro. Os sintomas em mudas são inicialmente caracterizados por um estiolamento ou alongamento das mudas, deformações e lesões nos ramos tenros e nas folhas mais novas. Posteriormente, as mudas secam ou param de crescer. Em pequizeiros adultos, inicialmente ocorre um alongamento dos internódios (entrenós do caule) e estiolamento dos ramos mais novos, fazendo com que estes se tornem muito flexíveis, retorcido e adquirindo aspecto de cipó. As folhas mais novas tornam-se encarquilhadas, com tamanho reduzido e, apresentam numerosas lesões escuras com até 3 mm de diâmetro que podem coalescer (aderir por crescimento), provocando o escurecimento total ou parcial da folha. Com o tempo, inicia-se o secamento que pode atingir a planta inteira, provocando a morte.

Como medidas de prevenção, recomenda-se evitar a coleta de sementes ou garfos (pontas de galhos para enxertia) de pequizeiros com essa doença. Caso a doença apareça no viveiro, eliminar as mudas com sintomas e, no caso de plantas adultas, recomenda-se podar e queimar todos os galhos afetados pela doença. Nos ferimentos provocados pela poda, deve-se pincelar uma pasta composta por 4 kg de cal hidratada e 1 kg de sulfato de cobre, diluídos em 6 litros de água.

·      Morte descendente – Causada pelo fungo Botryodiplodia theobromae. Os sintomas iniciam pelo secamento dos ramos mais novos, nos quais as folhas permanecem secas e retidas por até 3 meses.

Posteriormente, a doença atinge os galhos, culminando com a morte da planta. Nos galhos e ramos mais novos, podem ser observadas rachaduras profundas e lesões escuras. Sob a casca de ramos, galhos ou troncos afetados pode ser observado um tecido escuro e necrosado (em decomposição), que progride no sentido da copa para a base da planta. Como medida de controle, recomenda-se cortar e queimar os galhos secos e, sobre os cortes ou ferimentos, aplicar uma pasta bordalesa.

4.2-Mangaba

 

Divisão:                   Magnoliophyta (Angiospermae)

Classe:                    Magnoliopdida (Dicotiledonae)

Ordem:                   Gentianales

Família:                   Apocynaceae

Nome Científico:     Hancornia speciosa

Nomes Populares:   Mangaba, mangabeira, mangabiba, mangaíba, mangaiba-uva, mangabeira-de-minas.

Ocorrência:             Cerrado e caatinga, tabuleiros arenosos e chapadas.

Distribuição:            Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, São Paulo, Tocantins (Almeida et al., 1998).

 

A mangabeira é abundante em todos os tabuleiros e nas baixadas litorâneas da região Nordeste, onde se obtém – de forma extrativista – a quase totalidade dos frutos colhidos (www.seagri.ba.gov.br/mangaba). Acha-se as frutas também nos cerrados do Centro-oeste, no norte de Minas e em parte da Amazônia.

Floração: de agosto a novembro com pico em outubro.

Frutificação: pode ocorrer em qualquer época do ano mas principalmente de julho a outubro ou de janeiro a abril (Almeida et al., 1998).

Árvore hermafrodita de porte médio (entre 4 a 7 metros de altura), dotada de copa arredondada (4 a 6 metros de diâmetro); tronco tortuoso, bastante ramificado, áspero; ramos lisos, avermelhados; látex branco abundante. Folhas opostas, lanceoladas, simples, pecioladas, glabras nas duas faces, brilhantes, coriáceas, de 7 – 10 cm de comprimento por 3 – 4 cm de largura, coloração avermelhada quando novas e ao caírem. Inflorescência com cerca de 1 a 7 flores perfumadas de cor branca. Fruto baga globosa, glabra, com polpa carnosa e comestível, contendo muitas sementes; pode pesar de 30 a 260 g (Figuras 03 e 04).

Conhecendo o fruto e fazendo dele uso, os indígenas chamavam-no de mangaba – “coisa boa de comer”. O fruto tem forma de pêra, muito viscoso quando verde, contém suco leitoso que quase embriaga e pode matar; a polpa é branca, fibrosa e recobre sementes circulares. Maduro, o fruto tem casca amarelada com manchas vermelhas, é aromático, delicado, tem ótimo sabor mesmo sendo ainda um pouco viscoso (www.seagri.ba.gov.br./mangaba).

A mangaba só deve ser consumida quando madura pois, antes disso, pode até mesmo causar problemas de saúde para quem a consumir. Os frutos não devem ser retirados da árvore, mesmo que, aparentemente estejam maduros. Devemos aguardar que, após amadurecerem, caiam no chão para que possam ser colhidos. Para que possamos consumí-los, entretanto, devemos aguardar 24 horas. Nesta fase, a fruta está amarelada e apresenta manchas vermelhas (www.ruralnews.com.br/agricultura/frutas/mangaba).

Atualmente, a sua exploração ainda é feita de modo extrativista devido ao fato da cultura continuar sendo mantida no seu habitat natural. A planta produz frutos aromáticos, saborosos e nutritivos, com ampla aceitação de mercado, tanto para o consumo in natura quanto para a indústria de doce, sorvete, suco, licor, vinho e vinagre (www.dhnet.org.br).

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 03 – Detalhe árvore, ramos e folhas

Fonte: Clube da Semente

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 04 – Ramos e fruto

Fonte: Ecovila Novo Horizonte – Fauna e Flora da região

 

O potencial para o aproveitamento da mangabeira inteira é muito bom, apesar de que apenas os frutos apresentam um valor comercial significativo. Do tronco, podemos extrair o látex, substituto do látex da seringueira, mas com qualidade um pouco inferior (www.ruralnews.com.br/agricultura/frutas/mangaba).

A madeira é empregada apenas para caixotaria e para lenha e carvão (www.clubedasemente.org.br). Na medicina popular, o chá da folha é usado para cólica menstrual (Rizzo et al., 1990 apud Almeida et al., 1998) e o decocto da raiz é usado junto com o quiabinho (Manihot tripartita) para tratar luxações e hipertensão (Hirschmann e Arias, 1990 apud Almeida et al., 1998). A árvore é melífera e ornamental.

A mangaba é uma fruta rica em diversos elementos e em sua composição encontramos as vitaminas A, B1, B2 e C, além de ferro, fósforo, cálcio e proteínas. O valor energético, em cada 100g de fruta, é de 43 calorias (www.ruralnews.com.br). No quadro abaixo as propriedades nutritivas da mangaba (www.belaischia.com.br).

 

Propriedades Nutritivas por 100 gramas da fruta (polpa):

 

Vitamina A

Vitamina B1

Vitamina B2

Vitamina C

Niacina

(mg)

(mg)

(mg)

(mg)

(mg)

30,00

40,00

40,00

33,00

0,50

 

 

 

 

 

Glicídios

Proteínas

Lipídios

Cálcio

Fósforo

(g)

(g)

(g)

(mg)

(mg)

10,50

0,70

0,30

41,00

18,00

 

Borges et al., (2000), desenvolveram um estudo de caracterização dos frutos da mangabeira. Os resultados (Tabela 05) mostraram que os altos conteúdos de sólidos solúveis totais associados com a alta acidez, além do sabor exótico, conferem à mangaba um sabor muito apreciado. A quantidade de açúcar em relação aos sólidos solúveis totais corresponde a, aproximadamente, 77%, e a de açúcares redutores em relação aos totais, 59%. O teor de compostos fenólicos, em média de 0,31%, é comparável ao encontrado no pedúnculo do cajueiro-anão precoce, um fruto bastante adstringente, se ingerido in natura.

Uma característica de fundamental importância para o consumo da mangaba é o elevado teor de ácido ascórbico presente na polpa, que a coloca entre as frutas consideradas como ricas fontes de vitamina C, mais que os cítricos, citados como referência com relação a essa vitamina.

Os conteúdos de amido (0,52%) e de pectina total (0,54%) sugerem que o uso de enzimas pode aumentar o rendimento na extração de suco dessa fruta.

 

Características*

Médias

Peso Total (g)

19,82

Sementes (%)

13,23

Casca + Polpa (%)

86,54

Comprimento (mm)

33,37

Diâmetro (mm)

30,12

Sólidos Solúveis Totais (ºBrix)

16,72

Acidez Total Titulável (%)

1,77

Sólidos Solúveis/Acidez

9,51

pH

3,29

Açúcares Solúveis Totais (%)

12,98

Açúcares Redutores (%)

7,72

Amido (%)

0,52

Pectina Total (%)

0,54

Pectina Solúvel (%)

0,24

Pectina Fracionada (% - em relação aos SAI)

A.M. - 10,35 ï B.M.- 1,10 ï Prot. – 0,29

Pectinametilesterase (UAE)

498,39

Poligalacturonase (UAE)

17,33

Vitamina C Total (mg/100g)

139,64

Fenólicos Solúveis em Água (%)

0,29

Fenólicos Solúveis em Metanol (%)

0,33

Fenólicos Solúveis em Metanol 50% (%)

0,31

* SIA = sólidos insolúveis em álcool; A.M. = alta metoxilação; B.M. = baixametoxilação; Prot.= protopectina; UAE = unidades de atividade enzimática. 

 

A mangabeira é uma das mais importantes produtoras de matéria-prima para a agroindústria de sucos e sorvetes do Nordeste e Centro Oeste (www.todafruta.com.br).

Hoje, o volume de frutas que chega no mercado é menor que a procura. Nas regiões de maior ocorrência, muitas pessoas ganham o sustento informalmente com a coleta das mangabas e venda no mercado.

Atualmente, já ocorre a comercialização, em supermercados, de mangaba em bandejas de isopor revestidas com filme de PVC com capacidade para 500 g (Lederman et al., 2000 apud Borges et al., 2000).

Alguns cultivos comerciais estão começando a se estabelecer, mas as poucas informações sobre técnicas de cultivo ainda limitam a expansão dos pomares comerciais.

A mangabeira é uma planta de clima tropical, vegeta bem em áreas com temperatura média anual em torno de 25ºC e chuvas entre 750 mm a 1500 mm anuais bem distribuídas. A planta tolera períodos secos e se desenvolve melhor em períodos quentes. Apesar de ser encontrada vegetando em solos arenosos, ácidos, pobres em nutrientes e em matéria orgânica, e de fácil drenagem, a mangabeira apresenta melhor desenvolvimento em solos areno-argilosos profundos e com bom teor de matéria orgânica.

A mangabeira multiplica-se por sementes; estas são obtidas de frutos somente maduros – colhidos ainda “de vez”. Estes frutos devem ser sadios, com quantidade de polpa de bom aspecto e colhidos de plantas precoces, vigorosas, isentas de pragas e doenças, e produtivas. Imediatamente após retiradas dos frutos as sementes devem ser lavadas para eliminação total da polpa e secadas à sombra sobre jornal por 24 horas. Devem ser semeadas até o quarto dia após a lavagem. O semeio pode ser feito em canteiros de terra ou em sacos de polietileno preto com dimensões 14 cm x 16 cm ou 15 cm x 25 cm enchidos com terra preta e areia lavada – proporção 1:1 (www.seagri.ba.gov.br/mangaba). O uso de calcário e o excesso de irrigação e/ou matéria orgânica no substrato, para a formação de mudas, prejudica o desenvolvimento delas, além de favorecer o ataque de doenças do sistema radicular (Avidos e Ferreira, 2003). A germinação ocorre a partir de 21 dias após o semeio, estendendo-se por 30 dias.

O plantio definitivo é feito cerca de 120 dias após o semeio, no início das chuvas, quando as mudas tiverem cerca de 20 centímetros de altura. O crescimento é lento. O espaçamento recomendado em plantio solteiro é de 6 x 4 metros ou 6 x 5 metros. O plantio definitivo deve ser feito em terreno previamente adubado (um mês antes), com esterco de curral. Adubação orgânica, em geral, é muito bem aceita. As mudas devem ser colocadas em covas de 50 x 50 x 50 cm.

A mangabeira costuma crescer pendida devido à ação do vento e emitir grande quantidade de ramos laterais, muitos deles junto ao solo. Portanto, é necessário escorar a planta no lado oposto à incidência dos ventos, e realizar podas regulares, eliminando-se os ramos que crescem até a altura de 30 ou 40 cm do solo quando a planta alcançar 80 cm de altura. Galhos secos e doentes são podados ao longo da vida da planta. Regularmente, efetuar capina em coroamento em torno da planta e manter o resto da área roçada.

A colheita inicia-se quando a mangabeira chega aos 5 ou 6 anos de idade, embora já se tenha identificado plantas que frutificam com 3 anos e meio de idade. Apresenta 2 safras de fruto/ano – no início e meados do ano -. Quando a mangaba está no ponto máximo de desenvolvimento, desprende-se da árvore e completa o amadurecimento no chão, o que demora entre 12 e 24 horas. Quando maduros, os frutos tornam-se muito perecíveis e devem ser consumidos rapidamente, o que é um empecilho à comercialização. Por isso, a maior parte da colheita é feita no pé, e o fruto fica pronto para o consumo em dois a quatro dias. Nesse caso, deve-se ter experiência para saber a hora exata da colheita. Os frutos colhidos no chão, chamados “de caída”, são mais valorizados.

A produção de frutos da mangabeira é estimada em quatro toneladas/hectare/ano.

 

As principais pragas que podem atacar a mangabeira são:

·        Pulgão verde – ataca principalmente a parte terminal da planta notadamente nos viveiros causando o enrolamento das folhas; o controle químico pode ser feito por pulverizações quinzenais de produtos comerciais à base de pirimicarb, acefato, malation, paratiom.

·        Lagartas – ocasionalmente atacam desfolhando totalmente a planta jovem; o controle pode ser efetuado pela pulverização de produtos comerciais à base de bacillus thuringiensis, triclofon, carbaryl (www.seagri.ba.gov.br).

 

Segundo Silva et al., (2001), podem ocorrer algumas doenças, entre elas:

·        Podridão de raízes de mudas – Causada pelo fungo Cylindrocladium clavatum, é a mais grave doença da mangabeira, podendo provocar até 100% de moralidade das mudas em viveiro.

·        Mancha-Foliar – Causada pelo fungo Pseudocercospora sp., a Mancha-Foliar ataca folhas de mudas e plantas adultas de mangabeira.

·        Antracnose – Causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides, ataca as flores, provocando secamento e abortamento dos frutos. Quando os frutos jovens são atacados, ficam escuros, murcham e secam.

 

 

4.3- Baru

 

Divisão:                   Magnoliophyta (Angiospermae)

Classe:                    Magnoliopdida (Dicotiledonae)

Ordem:                   Rosales

Família:                   Leguminosae

Nome Científico:     Dypterix alata Vog.

Nomes Populares:   baru, barujó, castanha-de-ferro, coco-feijão, cumaru-da-folha-grande, cumarurana, cumaru-verdadeiro, cumaru-roxo, cumbaru, cumbary, emburena-brava, feijão-coco, meriparagé, pau-cumaru

Ocorrência:             Cerrado, Cerradão Mesotrófico, Mata Mesofítica.

Distribuição:            Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo (Almeida et al., 198).

Floração:                 de novembro a maio.

Frutificação:            de outubro a março.

 

Árvore hermafrodita de até 15 m de altura, com tronco podendo atingir 70 cm de diâmetro e copa medindo de 6 a 8 m de diâmetro, densa e arredondada. Folhas compostas por 6 a 12 folíolos, alternos ou subopostos, de coloração verde intensa. Inflorescência panícula terminal e nas axilas das folhas superiores, com cerca de 200 a 1000 flores, caducas antes da antese. Flores pequenas, de coloração alva e esverdeada. Fruto tipo legume, com 5 a 7 cm de comprimento por 3 a 5 cm de diâmetro, de cor marrom-claro com amêndoa e polpa comestíveis. Semente única, marrom-claro e marrom-escuro, cerca de 2 a 2,5 cm de comprimento, elipsóide, brilhante (Figura 05).

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 05 – Ramos e frutos de Baru

Fonte: Almeida et al., 1998.

O valor calórico da polpa é de 310 kcal/100 g, com alto teor de carboidratos (63%); é rica em potássio (572mg/100 g), cobre (3,54 mg/100 g) e ferro (5,35 mg/100 g) (Vallilo et al., 1990 apud Almeida et al., 1998). Destaca-se o elevado teor de fibra insolúvel (28,2%), de açúcar (20,45%) e de taninos (3%) para frutos ainda na árvore (Togashi, 1993 apud Almeida et al., 1998). A semente do baru é rica em cálcio, fósforo e manganês, apresenta 560 kcal/100 g, com cerca de 42% de lipídios e 23% de proteína. O óleo é rico em ácidos graxos insaturados (80%), sendo o componente principal o ácido oléico (44,53%) seguido do linoléico (31,7%), palmítico (7,16%), esteárico (5,33%) e outros, além da vitamina E (13,62 mg/100 g) (Togashi, 1993 apud Almeida et al., 1998). O óleo extraído do fruto é volátil, incolor e espesso. A semente apresenta também alto teor de macro e micronutrientes (mg/100 g): K (811), P (317), Mg (143), Mn (9,14), Fe (5,35), Zn (1,04) e Cu (1,08) (Vallilo et al., 1990 apud Almeida et al., 1998). Nas folhas a concentração de macronutrientes apresentou valores médios de P(0,14%), Ca (0,68%), Mn (150 ppm) e Zn (40 ppm) (Araújo, 1984 apud Almeida et al., 1998).

Estudando o comportamento dessa espécie, em competição, Toledo Filho 1985 apud Almeida et al., 1987), recomenda-a tanto para ornamentação de ruas e praças quanto para o aproveitamento silvicultural.

Planta ornamental, de copa larga, com bonita folhagem e ramos que oferecem resistência ao vento. Fornece madeira de cor clara, compacta, resistente às pragas, própria para construção de estrutura externas como: estacas, postes, moirões, obras hidráulicas, dormentes, bem como para construção civil e naval, para vigas, caibros, batentes de porta, assoalhos e carrocerias (Corrêa, 1931; Lorenzi, 1992 apud Almeida et al., 1998).

O gosto da amêndoa do baru, parecido com o do amendoim, leva a população da região a atribuir-lhe propriedades afrodisíacas: diz-se que na época do baru, aumenta o número de mulheres que engravidam. O que já se sabe é que o baru tem um alto valor nutricional que, superando os 26% de teor de proteínas, é acima do encontrado no coco-da-baía.

A amêndoa do baru pode (Figura 06) ser comida crua ou torrada e, nesse último caso, substitui com equivalência a castanha-de-caju, servindo como ingrediente em receitas de pé-de-moleque, rapadura e paçoquinha

(www.bibvirt.futuro.usp.br/especiais/frutasnobrasil/baru).

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 06 – Detalhe da amêndoa do Baru

Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

Para se obterem as amêndoas, tem-se primeiramente que retirar a polpa com faca. Os frutos despolpados são quebrados com o auxílio de uma morsa (torno fixo de oficina mecânica) ou martelo, processo esse bastante rápido. Recomenda-se quebrar somente aqueles frutos cujas amêndoas sacodem ao balançá-los, porque os outros não contêm amêndoas. A vantagem de se usar a morsa é que as amêndoas não são danificadas, sendo, por esse fato, usadas também para a formação de mudas (Almeida et al., 1987).

Ferreira (1980 apud Almeida et al., 1987) relata que as sementes do baru fornecem um óleo de primeira qualidade, que tanto é utilizado como aromatizante para o fumo como anti-reumático na medicina popular.

A polpa é bastante apreciada pelos bovinos, suínos e animais silvestres, que a consomem quando os frutos caem no chão ou das raspas que sobram da retirada da semente para consumo humano (Almeida et al., 1990 apud Almeida et al., 1998).

Os frutos maduros são procurados por morcegos e macacos. Os macacos chegam a atrapalhar a dispersão pois conseguem quebrar o fruto com pedra e comer as amêndoas (Ferreira, 1980 apud Almeida et al., 1998).

Embora tenha bom potencial econômico, o fruto não é comercializado nas cidades. Pode ser apreciado apenas como planta nativa nas fazendas do centro-oeste, onde alguns fazendeiros se preparam para iniciar seu cultivo racional principalmente em meio a áreas de pastagens (Avidos e Ferreira, 2003).

Para se efetuar a colheita de frutos de espécies arbóreas como Pequi, Jatobá, Cagaita e Baru deve-se estender uma lona, forro de pano ou de plástico ao redor da planta, balançar levemente os galhos e recolher os frutos sadios, sem vestígios de ataques de pragas ou de doenças, e acondicioná-los em recipientes adequados para o transporte (Silva et al., 2001).

Para a formação das mudas usam-se as sementes ou amêndoas.

Quando se faz a semeadura com sementes nuas, a germinação é mais rápida do que com o fruto inteiro. Sobre esse aspecto, Filgueiras & Silva (1975) apud Almeida et al., (1987) citam que as sementes nuas levaram treze dias para germinar, enquanto no fruto inteiro demoraram 42 dias.

As mudas dessa espécie devem ser mantidas a pleno sol, pois na sombra podem sofrer ataque de fungos Cilindrocladium sp. e outras pragas. Nogueira & Vaz (1993) apud Almeida et al., (1998), obtiveram mudas de 15 cm de altura após 40 dias da semeadura. Foi observado ainda que o crescimento da parte subterrânea é mais rápido que o da parte aérea.

A frutificação inicia-se aos seis anos (Carvalho, 1994 apud Almeida et al., 1998).

 

 

4.4- Cagaita

 

Divisão:                   Magnoliophyta (Angiospermae)

Classe:                    Magnoliopdida (Dicotiledonae)

Ordem:                   Myrtales

Família:                   Myrtaceae

Nome Científico:     Eugenia dysenterica Dc.

Nomes Populares:   cagaita, cagaiteira

Ocorrência:             Cerradão Mesotrófico e Distrófico, Cerrado sentido restrito

Distribuição:            Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Groso do Sul, Minas Gerais, Pará, Piauí, São Paulo, Tocantins

Floração:                 de agosto a setembro

Frutificação:            de setembro a novembro

 

Árvore hermafrodita com 6 a 8 m de altura por 6 a 8 m de diâmetro de copa, com ramos tortuosos, casca do tronco suberosa, profundamente sulcada e gretada.

Folhas verdes, brilhantes e quando jovens verde-claras, chegando a ser ligeiramente translúcidas (www.agro-fauna.com.br). São opostas, simples e caducas na floração (Almeida et al., 1998).

Inflorescência racêmulos umbeliformes ou alongados pelo posterior desenvolvimento vegetativo da gema terminal, simulando flores isoladas, axilares, geralmente com 4 flores, raramente 2 a 6 (Almeida et al., 1998). Flores brancas e aromáticas (www.agro-fauna.com.br).

Fruto globoso e achatado, de coloração amarelo-pálido, com 1 a 3 sementes brancas envoltas em polpa de coloração creme, de sabor acidulado (www.agro-fauna.com.br). O fruto mede de 3 a 4 cm de comprimento por 3 a 5 cm de diâmetro (Figura 07) e pesa de 14 a 20 g (Silva et al., 2001).

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIGURA 07    Cagaita (Eugenia dysenterica DC.) Myrtaceae. A. ramo com frutos; B. fruto inteiro e partido; C. polpa comestível; D. semente.

Fonte: Almeida et al., 1987.

 

 

Parente da pitanga, do araçá e da uvaia, a cagaita é uma frutinha arredondada de cor amarela suave. De fina casca, tem um sabor ácido e é bastante suculenta, apresentando cerca de 90% de suco em seu interior (Figura 08).

Apesar de seu sabor agradável e de sua natureza refrescante, o povo da região dos cerrados sabe que, por um capricho da natureza, a cagaita é uma fruta que deve ser saboreada com moderação. Quem não quiser acreditar, ficará sabendo que os nomes populares e científicos das frutas têm sua razão de ser.

O fato é que, consumida em excesso, a cagaita provoca uma fermentação, estimuladora do funcionamento intestinal e causadora de uma espécie de mal-estar semelhante à embriaguez. Por outro lado, a infusão da folha e da casca da árvore tem efeito contrário, sendo muito utilizada pela medicina popular como anti-diarréico.

No Centro de Tecnologia Agroindustrial da EMBRAPA, com sede no Rio de Janeiro, desenvolvem-se e testam-se novas receitas de sucos, geléias e doces, com amostras de frutas do Cerrado. Ali, juntamente com a amêndoa torrada do baru, o suco de cagaita constitui um dos produtos da preferência dos visitantes e funcionários.

Foi ali também que se comprovou aquilo que o nativo já sabia há tempos; se a fruta in natura provoca reações intestinais desagradáveis, a sua polpa, utilizada como ingrediente de sucos, geléias, refrescos, sorvetes, doces, geléias e licores, conserva apenas as suas características agradáveis de sabor e perfume (www.bibvirt.fututo.usp.br).

Árvore melífera (Brandão & Ferreira, 1991 apud Almeida et al., 1998) é também ornamental. Quando em floração oferece um bonito visual, uma vez que na época seca a folhagem que cai é substituída pelas folhas novas avermelhadas, e pelas flores alvas que